Apoio da UNITA na Alemanha: Caminhos da queda de Savimbi – José Gama

Apoio da UNITA na Alemanha: Caminhos da queda de Savimbi – José Gama

De todos os países Europeus, a Alemanha era o país, que  cujo modelo da arte de inteligência e comunicações, mais agradava  Jonas Malheiro Savimbi, a figura africana que em Berlim teve o maior aparato de segurança disponibilizado para sua proteção.

Luanda - De todos os países Europeus, a Alemanha era o país, que  cujo modelo da arte de inteligência e comunicações, mais agradava  Jonas Malheiro Savimbi, a figura africana que em Berlim teve o maior aparato de segurança disponibilizado para sua proteção. O favoritismo de Savimbi pela Alemanha ficou acentuado pela actividade da UNITA em terras germânicas, pela formação dos  seus técnicos de inteligência e pela aquisição de sofisticado e eficaz material de comunicação. ironicamente, Jonas Savimbi estava longe  de saber que os aparelhos de comunicações usados para o interceptarem seriam também de fabrico alemã, de que tanto gostava.

Fazendo uma  incursão ao período da guerra fria que apresentava um mundo bipolarizado. A Alemanha fruto dos resultados da segunda guerra mundial, encontrava-se dividida, nomedamente em República Democrática Alemã – RDA, também conhecida por Alemanha do Leste, aliada ao comunismo e ao Pacto de Varsóvia; por outro lado em República Federal da Alemanha- RFA ou Alemanha Ocidental,  aliada de Washington e ao OTAN. Cada uma delas tomou  a sua  posição e tirando partido do “status quo” que se registava no momento.  A RDA  apoiou o então  Governo  de partido único de Angola e a RFA  inclinou-se em torno da UNITA de  Jonas Savimbi, que ficou conhecido na Alemanha como o “ancião guerrilheiro africano”. A manifestação de solidariedade a favor da UNITA,  notabilizou-se por via do apoio de várias fundações,  com realce a "Hans Seidel Foundation" de que fazia parte, Franz Josef Strauss, o Ministro- Presidente do Estado da Bavaria e ex - Presidente da SCU (União Socialista Cristã),  que nutria fortes simpatias pelo guerrilheiro angolano.
 
É assim,  que no quadro da sua política externa defendida no IV congresso, a Direcção da UNITA enviou em finais de 1979,  como seu Representante na Alemanha,  o então  Tenente Coronel Carlos Tiago Kandanda. Por falta de autorização  oficial do Governo Federal para exercer actividade diplomática em território federal, Kandanda esteve  temporariamente  em Liechtenstein. Mais tarde com a ajuda de Franz Josef Strauss,  o amigo pessoal de Jonas Savimbi, passou  a funcionar oficialmente a partir de Munique (Bavária), terra natal de Strauss.
 
No verão de 1983, foi enviado, pela  Direção da UNITA,  um emissário  com a missão de abrir escritórios e representar o partido em Bona. De iniciou, a Alemanha recusou  a renovação do visto deste emissário e convidou-lhe a abandonar  aquele país tendo permanecido, por largos meses,  em França, junto do então Representante da UNITA em Paris, Paulo Lukamba Gato. Mais tarde depois de ser aceite fixou residência em Bona. O emissário usava passaporte Marroquino com o nome de Faraji Salem. Era  Major de patente e o seu nome real é Alcides Sakala Simões.
 
Kandanda permaneceu em Munique e Sakala, em Bona, a então capital da Alemanha Federal. As Representações da UNITA no exterior  gozavam de estatuto semelhante ao de  uma embaixada. Eram reconhecidas pelos Governos dos países onde estavam sediadas. Os seus representantes eram chamados para consulta e trocas de informação não só junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas também junto do Parlamento, tal como acontecia com Joaquim Ernesto Mulato, último  Representante do Movimento do “Galo Negro” na Alemanha.
 
Através dos partidos CDU e CSU da Alemanha, o "Galo Negro" conseguiu  ajuda política e militar. No quadro da cooperação com os conservadores alemães, foram formados, na cidade de Munique, no Estado da Baviera,  os primeiros quadros técnicos de inteligência e comunicação da UNITA, nomeadamente,  Florentino Kassaje, Abreu Kamorteiro e Wambu Chindondo. 
 
No segundo mês do ano de 1985, alguns quadros  da UNITA, ligados a área das operações, informação e diplomacia foram  instruídos  para se deslocarem a Munique afim de freqüentarem um curso de Inteligência cuja previsão de inicio estava marcada  para Abril e Maio. Entre eles estava o então  Coronel  Jardo Muekalia que chegava, no principio de Março,  vindo de Londres onde  representava o seu partido. Estiveram  também em Munique, para o mesmo objectivo, um grupo proveniente da Jamba que era chefiado pelo  Brigadeiro Isidro Wambu Chindondo, chefe dos Serviços de Inteligência Militar  da UNITA. Com ele estavam  outros sete  elementos,  nomeadamente, os oficiais Barbosa Antunes Epalanga "Bosa", Garces Chipeio,  Junior Kotingo Kavannack "Kavas", Virgílio Samakuva, Manuel Epalanga e Andre Chinjamba. O curso cobriu aspectos tradicionais de inteligência tais como, o recrutamento e treino de agentes, a coleção, processamento, analise e disseminação da informação através de uso de novos métodos e novas tecnologias correspondente a época. No final da formação todos tinham de regressar a Jamba.
 
Em termos de inteligência, a Alemanha cujos aparelhos de comunicação eram os melhores da época, estava a tornar-se cada vez mais na escola da UNITA. É assim que em 1986 foi enviado para o curso de Telecomunicações Militares e Serviços de Inteligência Militar, o então  Coronel Abel Chivukuvuku. Era um experiente na matéria. Quando era Tenente trabalhou como chefe adjunto dos Serviços de Telecomunicações Externas do movimento, em Kinshasa (RDCongo). O representante era António Dembo e o Adjunto era Gabriel Samy.
 
Em finais da década de 80, foi nomeado para Alemanha, um  novo Representante, o General Andolose Paulo Mango Alicerces em substituição de Alcides Sakala que foi enviado para Portugal. Mango Alicerces foi depois rendido por Ernesto Mulato, um histórico da guerrilha cujo  passaporte Marfinense, apresentava-o como funcionário presidencial. Na véspera da previsão da chegada de Jonas Savimbi á Alemanha, isto é , na primeira semana de Junho de 1990, o General Mango,  que desde Abril do mesmo ano já  estava a representar o seu  Partido em Portugal, foi chamado com antecedência para reforçar a equipa  da preparação da visita do líder do "Galo Negro", visto dominar suficientemente o dossiê Alemanha. Ernesto Mulato na altura estreava-se neste país, mas tinha ao seu lado Candeias "Kilé", um Tenente Coronel da Brinde que tinha o domínio de Bavária, zona de forte influência deste Partido.
 
Entretanto, depois da assinatura dos célebres Acordos de Bicesse aos 31 de Maio de 1991 em Portugal, entre o Governo angolano e a UNITA, o Presidente do "Galo Negro" foi recebido com pompa e honra pela segunda vez na Alemanha numa recepção com timbre de "visita de Estado". Foi a figura africana que, ao visitar Berlim e Bonn, teve o maior aparato de segurança jamais disponibilizado pelo Bundes Nachrichten Dienst-BND, os serviços de Inteligência Externa Alemão, á alguém que não ostentasse  o título de Chefe de Estado (africano).  Nem mesmo o falecido Mabuto ou o Presidente Omar Bongo tiveram tal aparato  quando  visitaram Alemanha. Paul Kagame, por exemplo,  teve direito a três Mercedes e um batidor.  Jonas Savimbi, teve direito a temível  guarda federal de farda verde e agentes do BND  com metralhadoras automáticas á vista (nem mesmo o então  Chanceler Helmut Kohl, ostentava tamanho aparato de proteção). Jonas Savimvi ficou  hospedado no hotel Adlon de Berlim  onde já passou Bush, Gorbatschow e outros. Já em Bona ficou  no hotel  Maritim, onde alugou um andar  (ao contrário do ex guerrilheiro  moçambicano Afonso Dhlakhama,  que se contentava com alguns quartos de um Hotel de 3 estrelas.) Tal aparato de segurança, deveu-se, como diria Alcides Sakala, “grande parte a sua influência no mundo e ao papel que desempenhava particularmente em África”.
 
Dias antes da chegada, o Presidente da UNITA foi aguardado no aeroporto de Bona por vários grupos de membros da comunidade angolana na Europa que se deslocaram  expressamente ao aeroporto Koeln/Bonn para  contemplar Jonas Savimbi. Massunguna Pedro que hoje dirige o Movimento Para Democracia em Angola (MPDA) destacou-se com o líder comunitário na cidade da  Baviera que conduziu uma caravana com mais de cinco autocarros. Permaneceram quase três dias no aeroporto aguardando pelo líder da UNITA. Alguns restaurantes e Pensões de Berlim e de Bona foram alugados e pagos pela UNITA para garantir  estadia e alimentação dos simpatizantes do seu líder. Quando Jonas Savimbi chegou  surpreendeu-os saindo pela porta de trás do aeroporto cortejado pelo aparato policial. 
 
Mesmo depois da década de 90, a  Alemanha continuou a ser a preferência da UNITA ate aos últimos momentos.  Cerca de 4 sapadores das FALA receberam formação nesta altura  em Munique. Os Merecedes Benz blindado que Savimbi usou em Luanda, eram de fabrico alemão com sistema de comunicação integrado e sintonizado a Segurança da UNITA no Miramar. Antes do VIII Congresso da UNITA no Bailundo, Província do Huambo, o General Lukamba Gato foi visto neste país a encomendar o  aparelho de comunicação que habilitou  cadeias internacionais como a CNN, a  fazer transmissão directa do conclave. A central do sistema de  comunicação usado pela Missão Externa na Europa, para se comunicar com Jonas Savimbi, nas matas estava montado na Alemanha. Eram coordenados pelo Engenheiro Ernesto Mulato e o Tenente Coronel Candeias da Brinde.
 
Nos últimos anos, a UNITA foi fragilizada e penalizada pelas sanções internacionais. Os seus bens na Alemanha foram confiscados pelo senhorio. Na altura, Luanda, despachou  para Bona, um oficial operativo, Xavier Esteves "Xavita", que acabava de deixar a delegação do SINFO no Kuando Kubango. O Brigadeiro "Xavita" era na Embaixada angolana, o "Chefe de Posto". (terminologia usada internamente para os primeiros secretários  indicados pela Segurança). Ganhou a sua importância em operações de desativação de redes da UNITA na Europa  e na elaboração da lista de nome de pessoas próximas a membros deste partido, em território germânico, posteriormente  enviadas  para aplicação de sanções pelas Nações Unidas.

Por conseguinte, foi também na Alemanha onde técnicos da Segurança angolana formados na escola da antiga RDA,  foram enviados para compra  de meios de comunicações usados, em parte, para  intercepção dos rádios que alguns comandantes  da UNITA usavam para se comunicar  com o seu líder  antes do fatídico dia 22 de Fevereiro de 2002.
 

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