O MEU TESTEMUNHO SOBRE A VIDA DO PRESIDENTE MFULUMPINGA

 

O MEU TESTEMUNHO SOBRE A VIDA DO PRESIDENTE MFULUMPINGA

ASSASSINADO NO DIA 2 DE JULHO DE 2004

 

Professor Mbala Lussunzi Vita

Faço parte dos que foram chamados “seguidores” de Mfulumpinga, no que diz respeito à maneira de viver e à visão política sobre a Angola. O termo “seguidor” não é mais empregue pelas pessoas que o inventaram.

Conheci o Presidente Mfulumpinga pessoalmente e compartilhei com ele momentos marcantes da vida quotidiana. Na verdade, ouvi falar, primeira vez, do presidente Mfulumpinga em 1992, durante o massacre dos Bakongos em Luanda, quando o homem, à este triste e macabro acontecimento, confirmou à sua devoção em defender o princípio dos direitos humanos do povo angolano.

Em 1994, enquanto vivia ainda na República Democrática do Congo (RDC), o presidente Mfulumpinga foi à Kinshasa, onde devia implantar o seu partido, o PDP-ANA. Naturalmente, nessa época, como era hábito dos angolanos da diáspora, fui cumprimentá-lo. Apresentado por um dos meus velhos amigos, o Sr. Lukoki Buta Tulante Jackson, tive a oportunidade de ter uma longa conversa com o Presidente Mpfulumpinga, na qual pude apreciar e descobrir o homem e o seu projecto político sobre Angola, o que me seduziu profundamente.

Por conseguinte, aceitei aderir aos seus ideiais e prometi fazer parte de PDP-ANA. Criança dos refugiados e de professor universitário, vivi o drama angolano tanto a agonia do sistema colonial (que a determinação do povo angolano legou ao museu da história) como a luta colonial que a guerra civil, de quase três décadas, que o MPLA (principalmente) e UNITA (que fez o jogo do MPLA) impôs ao povo angolano.

O meu “pai”, antes, activista obstinado do movimento nacionalista espontâneo de “UPA MAZA” ao norte da Angola, desde os anos de 1958 e, depois, militante da primeira linha do PDA e do FNLA, tinha-me legado o sentido de entrega à minha pátria amada, ao meu património cultural, obra dos nossos antepassados: “kimfwa-kimfwa, kimpinga-mpinga muna sisa ankulu etu” (morrer e assegurar a continuidade da raça humana na terra dos nossos antepassados e como estes o fizeram), dizia-me ele repetitivamente.

Compartilhamos, enquanto havia espírito no seu corpo, diversos valores culturais e filosóficos grças às consideráveis semelhanças que existiam entre nós.

O assassinato de Mfulumpinga naquela data inesquecivel de Sexta-feira, 2 de Julho de 2004, organizado e executado pelas forças angolanas do mal, claramente identificadas pelo povo angolano, deixa a seguinte imagem de sua vida:

  1. Mfulumpinga: dotado de um sentido agudo do dever patriótico e de suas virtuosas qualidades, viveu como um “animal político”, escolheu defender o povo angolano. Para tal, optou corajosamente por atacar aos que mal o governavam depois da independência o país. Ao em vez de desfrutar a possibilidade de levar uma vida luxuosa (pois ele bem podia, facilmente, pelo facto de ter sido um dos primeiros grandes professores angolanos autóctones da universidade), Mfulumpinga decidiu fazer utopia à riqueza material, recusando-se a trair o seu povo.

  2. Os próximos: pais, irmãos, irmãs, esposas, crianças, amigos...todos deixaram Mfulumpinga viver como ele quis. De resto, acreditaram na sua visão política sobre Angola, à qual todos aderiram.

  3. PDP-ANA: o partido criado por ele, (este)PDP-ANA, identificou-se ao seu fundador e após o seu miserável assassinato, este jurou prosseguir na defesa e promoção de seus ideais.

  4. Os assassinos: os que comandaram a sua morte, são os que se viam ameaçados e que, de tanto medo, recorreram à solução final: a dos fracos. No entanto, forçaram a porta, já aberta, e aí está Mfulumpinga no monumento dos heróis modernos de Angola, tal como à memória dos seus antepassados na luta contra a ocupação colonial portuguesa.

  5. Os executantes: são as mãos executadoras que o fizeram desaparecer de nós, colocando(metendo) em prática àquilo que se qualifica de “trabalho sujo”. Porém, só Deus sabe até quando estes criminosos continuarão a correr sobre esta terra dos homens.

  6. Os estudantes: os milhares de jovens angolanos, durante mais de duas décadas, conheceram e apreciaram o génio em Mfulumpinga (como professor de Análise matemática). A reputação deste grande formador da juventude excedeu o quadro académico, ainda muito fechado em Angola. Pois, a herança colonial, contínua subtilmente para uma parte dos angolanos, quer que a maioria dos filhos dos autóctones não tenha acesso ao ensino. Um ídolo dos estudantes, por conseguinte, foi segado na sua idade activa e de maturidade.

  7. O povo angolano, como um todo, é órfão daquele que compreendeu com profundidade o pensamento político nascido de condições especificas da vida em Angola. Com efeito, filho duma Angola profunda, foi obrigado, desde cedo, e acompanhado de seus pais, a representar o destino da maioria das crianças angolanas, da sua geração, tomando o caminho do exílio. Tornando-se quadro universitário, num contexto mais hostil que fosse, dos “deslocados”, Mfulumpinga dedicou-se à política a fim de influenciar o destino da nação, nas elites das decisões. Mas, desde o começo da sua carreira política, sofreu campanhas de calúnia (desprestigiantes) do tipo “Mfulumpinga fala mal o português” e outras que chegavam a duvidar até da sua nacionalidade angolana. Com efeito, a sua sinceridade e determinação em prol dos direitos do povo autóctone de Angola acabaram por lhe atribuir a razão. E o povo angolano, na sua maioria, identificou-se mais a este filho honesto e autêntico da terra-mãe, que recusou veementemente estabelecer uma ligação entre o facto “de falar bem portugues” e a capacidade de efectivamente “governar bem Angola”, de modos que todos os seus concidadãos, indistintamente de origem, cultura, raça e outras considerações vivam dignamente. Mfulumpinga interrogava-se constantemente sobre o porque os angolanos, não pelo facto de pertencerem a uma dita classe social, deviam ser excluídos do gozo dos seus recursos naturais, da sua terra-mae, por outros compatriotas que reclamavam serem mais “angolanos”, prevalecendo, com isso, uma herança colonial que estratificava a sociedade em "assimilados civilisados" e "indígenas primitivos". Em fim, o povo angolano chegara à conclusão que os que acusavam o fundador de PDP-ANA são “ladrões que gritam ao ladrão”. Tal é a causa real do contrato que vinculava Mfulumpinga ao povo angolano e que decidiu o seu assassinato.

O pensamento, a acção e o projecto político de Mfulumpinga merecem um estudo profundo em Angola, para o bem integral do povo deste país que é nosso.



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