Muitos angolanos associam eleições ao trauma da guerra

Muitos angolanos associam eleições ao trauma da guerra
“Esperemos que desta vez se saibam comportar como elites responsáveis, já que quiseram assumir um dia esse estatuto “, afirma Pepetela


Artur Pestana (Pepetela), um dos poucos escritores que ainda não virou "comerciante de ideias" do sistema vigente em Angola, escreveu o que a maior parte dos intelectuais angolanos pensa (e quando pensa!) em silêncio sobre o processo eleitoral em curso no País. O escritor disse o que lhe vai alma e pediu responsabilidade às (supostas) elites angolanas durante o processo eleitoral em curso e apela às instituições da sociedade que lhes exijam certas atitudes de equilíbrio e tolerância, condenando os gestos extemporâneos logo que se manifestem. A opinião do autor das "Aventuras de Ngunga", entre outras obras, disse igualmente que a população ainda associa as eleições à guerra.

Pepetela, um dos mais conceituados escritores angolanos, denuncia, numa crónica da sua autoria publicada na página 31 da última edição da revista portuguesa "Le Courrier Internacional", as «sombras» que pairam sobre o processo eleitoral e exige que, desta vez, as elites saibam comportar-se de forma responsável.

"Depois do fracasso de 1992, primeira e única vez que o Povo angolano votou por uma Assembleia Nacional e um Presidente da República, sofrendo em seguida a pior guerra de sempre, é natural haver receios acrescentados em relação a esta segunda tentativa", sublinha.

Pepetela afirma na referida crónica que uma parte da população angolana ainda associa eleições com guerra e muito trabalho tem de ser feito para se ultrapassar esta falsa relação e convencer os relutantes de que votar não é só um direito como um dever de cidadania.

O escritor - que em 1997 arrebatou o maior galardão literário de Língua Portuguesa (Prémio Camões) - apela a necessidade de se "ultrapassar todos os temores e tomar a única atitude possível: vamos para frente e confiantes. Se o Povo já ganhou, com os horrores do passado, a riqueza da sabedoria e da ponderação, esperemos então que as elites políticas, únicas responsáveis pelo que acontecer, de bem ou de mal, tenham assimilado finalmente uma pequena parte dessa lição. Esperemos que desta vez se saibam comportar como elites responsáveis, já que quiseram assumir um dia esse estatuto".

Para ajudar a capacidade de ponderação das elites – reflecte Pepetela na sua crónica -, deveria haver um forte controle social sobre elas. Nesta conformidade, o escritor manifesta a esperança no seu escrito dizendo que talvez não seja tarde para que as pessoas e instituições da sociedade lhes exijam certas atitudes de equilíbrio e tolerância, condenado os gestos extemporâneo logo que se manifestem. "Houve uma tentativa de se estabelecer uma espécie de código de conduta, mas a sua iniciativa partiu de partidos políticos, estando portanto imediatamente destinada a ser minimizada. Teria de ter começado em organizações e individualidades acima dos interesses partidários, para poderem ter a força de exigir que o que perca as eleições aceite os resultados sem muita contestação e o que ganha não procure esmagar os outros com o seu triunfo", refere.

Pepetela, de nome próprio Artur Pestana, nasceu em Angola, na província litoral de Benguela, aos 29 de Outubro de1941. Descendente de uma família colonial, os seus pais eram, no entanto, já nascidos em Angola.

É na sua cidade natal que Pepetela faz o ensino primário, depois a partida para o Lubango, só aí era possível prosseguir os estudos e foi no Liceu Diogo Cão que Pepetela completou o ensino secundário.

Lisboa, em 1958, foi o destino académico que se seguiu, no Instituto Superior Técnico que o autor frequentou até 1960 quando ingressa no curso de engenharia. Uma vez mais a mudança, desta vez para frequentar o curso de Letras apenas durante um ano, pois, ainda em 1961, Pepetela faz a opção política que viria a mudar o rumo da sua vida e a marcar toda a sua obra, tornando-o um narrador de uma história de Angola que conhece, porque a viveu. Pepetela tornou-se militante do MPLA em 1963. Quando abandona a vida política, Pepetela opta pela carreira de docente na faculdade de arquitectura em Luanda a dar aulas de sociologia.

Pepetela é autor de obras As Aventuras de Ngunga (1973), Muana Puo (1978), Mayombe (1980), O Cão e os Caluandas (1985), Yaka (1985), Lueji (1989), Geração da Utopia (1992), O Desejo de Kianda (1995), Parábola do Cágado Velho (1997), A Gloriosa Família (1997), A Montanha da Água Lilás (1997), Jaime Bunda, Agente Secreto (2001), Jaime Bunda e a Morte do Americano (2003), Predadores ( 2005), O Terrorista de Berkeley, (2006), Califórnia (2007), O quase fim do Mundo (2008).

Por Jorge Eurico

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