Faltou paciência

 
Faltou paciência
a Chivukuvuku
Luanda - Quando se fez a apresentação dos delegados ao X Congresso da Unita, no dia 16 de Julho, em Viana, Abel Epalanga Chivukuvuku foi o primeiro nome citado e a sala aplaudiu calorosamente, com vivas à mistura.

Quando, a meio da contagem, se ouviu o nome de Isaías Ngola Samakuva,
troou pela sala um forte coro de apoio que suplantou, em larga escala, os aplausos a Chivukuvuku. Os dois eram candidatos à presidência da Unita, o barulho que o nome de Samakuva, lido pela voz de Clarice Kaputu, fez erguer, ditou aí mesmo, no primeiro acto, a história da disputa eleitoral. Ficou claro quem haveria de sair vencedor. Além da renovação da confiança e apoio à Samakuva, por parte dos militantes da Unita, o resultado da disputa veio revelar uma verdade insofismável: Na política, o sentido de oportunidade é tudo! Foi, fundamentalmente, a falta de sentido de oportunidade que ditou a derrota de Chivukuvuku.

Na Unita há consenso quanto ao reconhecimento do valor político de Abel; há até admiração pela sua oratória, jovialidade, irreverência e até carisma. Mas há, sobretudo, como se viu, um forte sentido de reconhecimento ao líder que une o partido, e ainda um conservadorismo que levará tempo a ultrapassar. Ou seja, a mudança que a Unita aceitou no IX Congresso, em que Samakuva derrotou Lukamba Gato, deveria ter servido de aviso à Chivukuvuku.

Em 2003, a eleição de Samakuva em detrimento de Gato, que detinha o leme do partido e que tivera estado perto de Savimbi até à morte deste, não se tratou apenas de uma evolução democrática. Tratou-se, sobretudo, da opção por alguém com forte identificação com os princípios da organização, com referências sólidas a Jonas Savimbi e, mais ainda, alguém em condições de gerar consensos e com eles a sobrevivência do partido na altura mais difícil da sua história. Ao propor uma rotura com a forma como a organização tem vivido, Chivukuvuku ignorou o factor consenso. Organizações como a actual Unita ainda preferem agir comandadas por um forte sentido de grupo. Abel Chivukuvuku, não deu ouvidos, porém, às muitas vozes que o aconselhavam a ter paciência. Talvez a sua lógica fosse a de partir primeiro, aproveitar a empatia social e o facto de, porventura, ter um nome mais facilmente reconhecido entre a juventude que o de Samakuva. Teoricamente, estes dados somados à sua proposta e à sua postura «mais combativa», em vésperas de eleições legislativas, convenceriam a sociedade e os militantes da Unita da sua melhor condição para levar o partido a outros voos.

Esta atitude, se vencesse, colocá-lo-ia também em posição de vantagem em relação a outros dirigentes relativamente jovens como Jardo Muekália e pesos pesados como Jaka Jamba (para citar apenas um nome em cada caso), com os quais teria que se confrontar numa corrida para ocupar o lugar deixado vago por Samakuva no fim dos seus dois mandatos. Nas contas de Abel, talvez fosse mais fácil apear Samakuva, apontando-lhe a falta de combatividade política e a estagnação do partido. Não bastou. Abel terá descurado aqui um aspecto importante: para a substituição do «actual líder», não basta a proposta de maior combatividade, irreverência e mudança; é importante também aferir se o partido está satisfeito com o líder que tem, se este está ou não a cumprir com o essencial da sua missão (Samakuva conseguiu manter o partido coeso) e, mais importante, se a organização tem ou não razões para penalizar o «actual líder».

Samakuva não foi sujeito a qualquer prova de fogo, por enquanto, ainda não perdeu qualquer eleição, ou seja, o partido não teve referência da sua aceitação por parte da sociedade votante e das suas capacidades de liderança em plenas «hostilidades». Os militantes não tiveram como saber se a postura de Samakuva os prejudica ou não na hora do voto. Como penalizar alguém que ainda não errou? Para cúmulo, das vezes em que lhe foi solicitado, incluindo no debate nas antenas da Voz da América, Chivukuvuku escusou-se a fazer uma análise do mandato de Samakuva, perdendo assim a oportunidade de dizer aos militantes porquê que deviam castigar Samakuva retirando-lhe a confiança. Abel Chivukuvuku poderá ainda chegar ao cadeirão máximo do partido, mas não lhe será fácil. Terá agora de se valer pela competência política, mais do que pelo carisma. Terá de brilhar no parlamento e nas suas prestações partidárias. Terá de esperar que o segundo mandato de Samakuva corra francamente mal e que este averbe derrotas vergonhosas nas legislativas do próximo ano e nas presidenciais marcadas para 2009. Por fim, Abel, para chegar a líder da Unita, terá de vencer os outros candidatos que não serão mais fracos, decerto. Sem uma derrota no currículo tudo seria mais fácil. A impaciência de Abel Chivukuvuku nesta corrida à presidência da Unita revelou-se cedo, pelos nomes que se predispuseram a apoiá-lo.

Mas Abel não conseguiu criar uma forte vaga de fundo, não conseguiu reunir uma dúzia de
pesos pesados à sua volta e, de entre os seus apoiantes, alguns ainda não têm a imagem
completamente reabilitada aos olhos do partido. Para conquistar um partido é necessário saber aproveitar a oportunidade em que os olhos dos militantes se viram para o candidato, ou quando procuram um candidato. Na verdade, se o «Chivukuvuku presidente» fosse bem-vindo, nas comunicações de Abel teríamos ouvido uma frase-chave. Algo do género: «respondendo ao apelo de vários militantes, decidi colocar-me mais uma vez ao serviço do partido e apresento a minha candidatura…» Se Abel tivesse esperado até ao final do mandato de Samakuva, seguramente teria muita gente a incitá-lo a candidatar-se e o seu primeiro discurso teria começado com essa frase.

Abel Chivukuvuku é, assim, um militante da Unita que queimou muito do seu capital político no interior do partido pela simples razão de não ter querido ouvir um conselho que lhe vinha sendo dado há muito tempo: paciência até à melhor oportunidade. Dizia-o quem sabia do peso da massa conservadora na Unita.

Abel, o congresso e o grande «echívuko»

Abel Chivukuvuku passou os últimos três anos a trabalhar naquilo que segundo o seu pensamento deveria ser o projecto da Unita para o futuro. Nesse processo calcorreou o país, desfez alianças, conquistou novos aliados, renunciou a cargos e conseguiu parcerias no estrangeiro.

Às portas do congresso repetiu a tese de que se a Unita quisesse ser alternativa no futuro não podia continuar com a gestão do passado. Ironia do destino, foi exactamente no que ele fez no passado, e não no que ele prometia para o futuro, que os delegados, sobretudo os das bases, encontraram razões para o rejeitar.

O «echívuko» é maior porque pelos vistos, Abel, tido como sendo bem parecido, no que estarão certos os que assim pensam, e bom orador, o que já é questionável, não levava respostas para as perguntas que circularam nos corredores do centro de conferências da Unita.

Há militantes que não lhe perdoam, primeiro, o distanciamento em relação a Jonas Savimbi, que ele disse em mais do que uma ocasião, que era uma carta fora do baralho – no que se veio a confirmar – nem toleram o facto de muito recentemente se ter afastado de Isaías Samakuva.

O deputado da Unita foi confrontado com sugestões que fez no passado favoráveis à substituição de alguns símbolos do partido, entre os quais o intocável galo negro, bem como a sua progressiva urbanização, entendida nalguns sectores como uma «desruralização» da Unita, inaceitável segundo a génese dos «maninhos».

A velha estória da «somalização», argumento que se pensou oferecer vantagens exclusivas ao Mpla também foi atirado à liça. Houve entre os delegados, quem tivesse dito que Abel precipitou-se ao fazer aquele pronunciamento, e voltou a precipitar-se agora quando ao invés de deixar Samakuva concluir a transição, fez-se ostensivamente ao lugar provocando desnecessárias divisões ao partido.

O «xeque-mate», se assim se pode dizer, foi o envolvimento de Abel Chivukuvuku ao lado de Valentim e Manuvakola no processo de lançamento do Cru, Comité Renovador da Unita, de que veio a afastar-se horas antes do lançamento do seu manifesto.

Abel pelos vistos também não contava com o que os deputados tinham na memória. Alguns não se esqueceram do facto de Abel, enquanto chefe da bancada da Unita, ter apelado à abstenção durante a votação do Oge de 1996. Eram anos de guerra, convenhamos. Jonas Savimbi, evidentemente, também não gostou da posição de Abel. Ironia ou não, foi a Lukamba Gato, na altura arqui-inimigo de Abel, e hoje um dos seus grandes apoiantes na batalha contra Samakuva a quem Savimbi recorreu para lhe dar uma ripada. Enfim outro grande «echívuko».

Perante tudo isso, Abel acaba por perder a sua primeira grande batalha, ficando agora com o desafio de provar se afinal o ocaso dele enquanto político é substância ou apenas aparência. Não há nada que um político não possa fazer em quatro anos, mas qualquer que venha a ser a sua decisão, tem que deixar de pensar que é o homem por quem se espera. Os delegados não fizeram caso da sua ascendência monárquica, e nem o discreto apelo ao equilíbrio a favor do Huambo contra o Bié foi levado em contra. Enfim, muita coisa para aprender nos próximos anos.

Fonte:Semanário Angolense

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