Agualusa considera Agostinho Neto «poeta medíocre» e é ameaçado

Agualusa considera Agostinho Neto «poeta medíocre» e é ameaçado

Uma polémica literária em Angola, suscitada pela alegada mediocridade da obra poética de Agostinho Neto, está a resvalar para o domínio político-jurídico, com ameaças de processo-crime por ultraje à moral pública contra o escritor angolano José Eduardo Agualusa.

Em causa está uma passagem da entrevista que José Eduardo Agualusa deu ao jornal Angolense, de 15 de Março passado, em que o primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, é classificado como "poeta medíocre".

"Uma pessoa que ache que o Agostinho Neto, por exemplo, foi um extraordinário poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia. Agostinho Neto foi um poeta medíocre", assim se referiu Agualusa a Agostinho Neto, defendendo na entrevista que outros autores angolanos, como António Cardoso ou António Jacinto - a quem reconhece destaque na luta nacionalista angolana -, são igualmente "fracos poetas".

Na resposta, o Jornal de Angola acusou em editorial o escritor de procurar "humilhar figuras de relevo da História e Literatura Nacional".

José Eduardo Agualusa contra-argumentou na edição de 29 de Março do semanário A Capital, chamando "zombies" aos que lhe não reconhecem direito à opinião, considerando que no seio do MPLA, o partido maioritário angolano, "confrontam-se hoje em dia democratas autênticos, democratas de fantasia (...) e uma mão cheia de órfãos da ditadura".

Num outro texto publicado pelo Jornal de Angola, João Pinto, que se apresentou como jurista e docente de Ciência Política e Direito Público na Universidade Agostinho Neto, proclamou, sob o título "Literatura e Identidade e Política", a necessidade de "responsabilidade criminal e civil por estarem reunidos todos os requisitos do ultraje à moral pública, previsto e punido no artigo 420º do Código Penal".

"A escrita não pode servir para humilhar, banalizar, diabolizar os ícones, heróis, mitos, deuses ou divindades. considerou. "É preciso moralizar, sob pena de banalizar a figura mais importante da nossa memória colectiva contemporânea", justificou o jurista.

A respeito desta polémica, o poeta e tradutor Vasco Graça Moura disse à Lusa que embora reconheça "relativamente mal a poesia angolana", está de acordo com José Eduardo Agualusa.

"Conheço relativamente mal a poesia angolana. Mas daquilo que conheço, estou inteiramente de acordo com aquilo que diz o José Eduardo Agualusa", disse.

"Penso que ele faz uma apreciação do ponto de vista literário e isso está no exercício pleno da sua liberdade de expressão e do seu direito à crítica. Penso que confundir o plano da maior ou menor relevância política ou até histórica de determinadas figuras com a sua qualidade literária pode conduzir a equívocos terríveis", vincou Vasco Graça Moura.

Para José Eduardo Agualusa, contactado telefonicamente em Luanda pela Lusa, a partir de Lisboa, as reacções às suas opiniões vão para além do plano literário e insere-as num "processo de intimidação".

"Este processo de intimidação não tem a ver só comigo. Tem a ver com outras pessoas e com mais coisas", considerou o escritor, que associa este ambiente à proximidade das eleições em Angola, marcadas para Setembro próximo.

O recente encerramento em Luanda por ordem do Governo do escritório das Nações Unidas para os Direitos Humanos enquadra-se neste mesmo clima, acrescentou.

José Eduardo Agualusa considerou que o texto do jurista João Pinto "não é respondível. Está noutro plano. É surrealismo", salientando ainda que a sua crítica sobre a poesia de Agostinho Neto "não era política, era literária".

"O MPLA é uma estrutura complexa em que há pessoas que não concordam nada com isto. Tem havido comentários de várias pessoas ligadas ao MPLA alertando para o absurdo desta reacção", adiantou.

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