A "Paz Militar" em Angola: Um Paradoxo

 A "Paz Militar" em Angola: Um Paradoxo 

Por: Tadeu Kahombo

angoterra:18-03-2008-1743

Dado o evoluir dos acontecimentos em Angola, e em função das perspectivas que se traçam, nada melhor que trazermos aqui o ensaio a "Paz Militar" em Angola de Carlos Pacheco. Consideramos o ensaio de um grande valor heurístico e que permite, da melhor forma, esboçar alguns contornos sobre o futuro próximo de Angola. Recorde-se que Carlos Pacheco é um historiador angolano, a viver actualmente no Brasil onde se dedica à investigação histórica,sobretudo em aspectos que têm a ver com as relações entre Angola e Portugal colonial. Tem, para além disso, várias obras publicadas.

O ensaísta Carlos Pacheco começa por esboçar uma hipótese, segundo a qual "as forças militares do governo" conseguem, de facto "destruir ou dominar a máquina de guerra da UNITA". Em caso afirmativo, o ensaísta diz mais adiante que se isso, de facto, acontecer, caberá perguntar se esta derrota irá fazer com cessem "para sempre as hostilidades". Sob o nosso ponto de vista a resposta é negativa e nesse sentido estamos plenamente de acordo com Carlos Pacheco quando, mais adiante, afirma que a "história tem-nos ensinado que a paz assente na "ponta das baionetas" nunca é definitiva. Menos ainda se resultar de uma guerra civil. Quem ganha procura preservar todo o Poder para si, sentido-se satisfeito e aclamando vitória como duradoura. O mesmo não se passa com os vencidos que são obrigados a aceitar uma paz que os humilha, por ser "contra eles" ou "sobre eles".

Para fundamentar a sua asserção, Carlos Pacheco recorre a Comte-Sponville e a Espinosa. Apoia-se no primeiro para o parafrasear: "não há derrota sem amanhã" e no segundo, para fundamentara sua ideia segundo a qual "Todas as guerras entre homens da mesma nação mal resolvidas- que revertem em Poder para uns e capitulação para outros" são uma "guerra continuada".

Na verdade e estamos de acordo quanto a isso, a guerra civil, é, pela sua natureza, muito mais susceptível de criar feridas difíceis de sarar numa nação e os rancores podem transmitir-se de geração em geração, comparativamente com uma guerra em defesa da soberania. Como exemplo, o ensaísta cita o caso da tragédia Irlandesa, cujas desavenças duram desde o Século XVI até aos dias de hoje.

Ao extrapolar estes aspectos para o caso da guerra angolana, Pacheco antevê um futuro cheio de "turbulências destrutivas". Para ele a razão para que isso aconteça é muito simples pelo facto de que o MPLA quer "impor ao País sua paz,continuando com o poder férreo" o que na perspectiva do autor "não augura nada de bom para o futuro", sobretudo para a "democracia e para o livre exercício dos direitos humanos".Um segundo aspecto de igual modo de capital importância na análise de Pacheco,cinge-se a concepção demasiado arraigada em Angola de que o conflito angolano se reduz-se a duas personalidades, ou seja, entre José Eduardo e Jonas Savimbi, que agora que está morto,poderia, de uma vez por todas, fazer com que o conflito chegasse ao fim.

De acordo com Carlos Pacheco "os verdadeiros actores desta guerra não são pessoas singulares e sim duas comunidades culturais e étnicas distintas- os ovimbundu e os grupos de Luanda-, os quais, apesar de viverem uma união política aparente desde a colonização,nunca entre elas se criou um "sentimento nacional" comum. Carlos Pacheco vai mais longe para tentar provar o seu ponto de vista, alegando que entre essas duas comunidades "as suas histórias, próximas e distantes ao mesmo tempo, sempre se cruzaram mais na guerra do que na paz ao sabor dessa permanência ambivalência que,desde o segundo quartel do século XIX ,opôs o litoral ao interior.

É opinião de Pacheco que desses choques nasceram "profundas incompatibilidades e ressentimentos mútuos". Os ovimbundu sempre se sentiram na pele das maiores vítimas da colonização. Luanda sempre lhes suscitou as maiores reservas, em especial as elites negras e mulatas a quem apelidavam "criações" do colonialismo. Entretanto, com a independência estas incompatibilidades, longe de se terem suavizado, se agravaram.

E a solução que Carlos Pacheco apresenta para se sair deste imbróglio é o diálogo, lutando por uma "articulação social, política e económica na estrutura interna do Poder em Angola". Será está que permitirá augurar "o nascimento de um novo país e o nascimento de uma paz sólida."

Tomando em consideração que o MPLA fez sempre tábua-raza a estes pressupostos só nos resta aguardar pelo evoluir dos acontecimentos em Angola. E em verdade se diga, seria catastrófico se a guerra persistisse através de formas mais subtis e veladas. Queira Deus que a luta entre essas duas comunidades continue,mas no pleito eleitoral.

 


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Commentaires (2)

1. meireles (site web) 30/07/2008


OPINIÃO A CERCA DO LIVRO “ O HOMEM E O MITO “ VIRIATO DA CRUZ.

O historiador Carlos Pacheco demonstra uma certa frieza pelo facto do DR Hugo José Azancot de Menezes ( um dos fundadores do M.P.L.A.) não ter aderido na altura da crise do MPLA ou seja não se ter aliado ao Viriato da Cruz.
Com a emergência de um novo governo hostil ao MPLA e a sua expulsão de Kinshasa todos quadros do MPLA tiveram que abandonar este país.
Julgo o que mágoa do DR Carlos Pacheco foi o facto do DR Hugo José Azancot de Menezes não se ter aliado a sua pessoa e posteriormente alternativamente seguido o percurso mais consensual ,do DR Agostinho Neto.
Pois não sei quem seriam os verdadeiros e grandes aliados do Viriato da Cruz.
O facto do Carlos Pacheco deter as memórias do DR Hugo de Menezes há quase 8 anos e não os publicar alegando justificações pouco plausíveis reafirmam a tendência pela corrente do Viriato.

Pergunto hoje com que corrente políticas vigentes em Angola as teses do Viriato se coadunam ?
Efectivamente quantas correntes políticas actualmente se digladiam em Angola?

Em qual dos terrenos mais férteis culturalmente, socialmente e financeiramente elas vingariam?
No livro do Viriato da Cruz denominado “ O HOMEM E O MITO” DR Edmundo Rocha relata o afastamento do MARIO DE ANDRADE, HUGO DE MENEZES e outros interpretando como traição ao Viriato.
Mesmo que qualitativamente a criatividade do Viriato fosse de longe tão evidente e superior aos seus correligionários maioritariamente sensíveis e politicamente atentos e bem formados não perfaziam uma soma desequilibrante.
Será que as teses do Viriato a luz da actualidade ou nova globalização seriam consentâneas com as novas democracias emergentes?

Ou se caso contrario a sua prática vingasse qual seria o desfecho político até aos nossos dias?

Será que existe actualmente uma continuidade ideológica entretanto travada por outras utopias?

2. joão paulo sousa Menezes (site web) 30/07/2008

Dr carlos Pacheco vigarista prometeu escrever sobre o Viriato e ainda não lançou ; ha oito anos tem as memorias do meu tio altura que morreu ainda não lançou.
Esperamos que este vigarista não esteja a dar a matéria e o espolio e conteudo das memorias do livro do meu tio aos parasitas que estão a lançar livros a coberto deste cretino encoberto.

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