O enigma de Angola

 O enigma de Angola

Perfil: José Eduardo dos Santos. O Presidente José Eduardo dos Santos usa um tom de voz baixo e frases muitas vezes enigmáticas. De ditador comunista a pragmático aliado americano, o líder do MPLA é um dos dirigentes africanos há mais tempo no poder.

(Diário de Notícias)

 

Perfil: José Eduardo dos Santos. O Presidente José Eduardo dos Santos usa um tom de voz baixo e frases muitas vezes enigmáticas. De ditador comunista a pragmático aliado americano, o líder do MPLA é um dos dirigentes africanos há mais tempo no poder.


Para um observador europeu, a ascensão de José Eduardo dos Santos ao poder é um enigma, embora o contexto angolano e a guerra civil, mas também o acaso, ajudem a explicar a história. Na política africana, o efeito caótico da sorte parece sempre ter peso especial na escolha dos líderes.

Para os admiradores, este é um homem de acção, que venceu a guerra e serviu o país em momentos difíceis, usando um estilo até relativamente bondoso, para os padrões da região.
Os críticos falam sobretudo da corrupção do regime e da forma como o Presidente gere as rivalidades internas do regime, através da divisão do espólio. Nas versões mais duras, Eduardo dos Santos chefia uma elite que se apropriou da riqueza petrolífera e é culpado de ter contribuído para prolongar desnecessariamente a guerra civil (acusação que partilha com Jonas Savimbi, o falecido líder da UNITA).

Nas críticas mais suaves, por exemplo as de alguns intelectuais angolanos, sublinha-se a lentidão nas reformas democráticas e refere-se a vida faustosa dos dirigentes do regime, em oposição à pobreza geral do país, ainda entre os menos desenvolvidos do mundo.

Um dos líderes africanos há mais tempo em funções, José Eduardo dos Santos (de 66 anos, no poder desde 1979), transformou um regime de modelo socialista e partido único num ainda de autoridade, mas apesar de tudo multipartidário, com liberdade de expressão, privatizações e regras de economia de mercado.

O país está em paz e a oposição dominada. A corrupção não impede que Angola tenha as mais altas taxas de crescimento económico do mundo. A violência é quotidiana, mas não se compara com a da guerra civil. Sendo Angola um país jovem, a sociedade é dinâmica e não haverá muitos eleitores que ainda se lembrem da ditadura comunista e dos tempos coloniais.

ImageO Presidente angolano nasceu nesses tempos coloniais, em 1942, em Luanda, numa família pobre. Estudou no liceu Salvador Correia e, nos anos 50, juntou-se a grupos independentistas clandestinos. No mesmo ano em que começou a luta armada, 1961, José Eduardo dos Santos saiu do país, para a actual República do Congo, tornando-se dirigente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), partido marxista chefiado por Agostinho Neto.

Nos anos seguintes, o ambicioso dirigente estudou na URSS, tendo concluído a licenciatura em engenharia de petróleos num Instituto de Baku, agora a capital do Azerbaijão, mas na altura o centro da indústria petrolífera soviética. José Eduardo dos Santos teve treino militar soviético e participou na guerra colonial, na Frente de Cabinda, como oficial responsável pela área das telecomunicações militares dessa zona (versão oficial).

Num contexto de independência mais tranquilo, este jovem dirigente, ainda sem grande experiência, teria uma subida mais lenta. Mas a carreira de José Eduardo dos Santos acelerou na guerra civil e, sobretudo, após a purga partidária de 1977, na sequência do golpe de Nito Alves, que decapitou parte da liderança do MPLA. O comité central do partido perdeu um terço dos seus membros. A repressão vitimou milhares de militantes e uma das consequências foi a subida muito veloz de toda uma nova geração.

Agostinho Neto morreria em 1979 e José Eduardo dos Santos, quase desconhecido dois anos antes, foi escolhido para dirigir o país. Apoiado pelos soviéticos, num contexto de Guerra Fria, era considerado reformista e unificador do partido. Muitos dirigentes, certamente, pensaram que seria fácil manipular este jovem político então com apenas 37 anos. Estavam muito enganados.

O reforço de poderes foi a tarefa a que se dedicou, tendo introduzido reformas ainda nos anos 80, apesar da guerra. Mas o colapso do bloco soviético obrigou o Presidente a mudar a estratégia. Seguiu-se o anúncio da democratização e o acordo de paz de Bicesse, em 1991, mediado pelos portugueses.
Em Setembro do ano seguinte, novo momento decisivo: José Eduardo dos Santos venceu a primeira volta das presidenciais, à frente de Savimbi, mas sem atingir a maioria. Não chegou a realizar-se a segunda volta. No violento reacender do conflito, alguns dos principais dirigentes da UNITA foram mortos, ao tentarem fugir de Luanda. A guerra duraria mais dez anos.

Num ambiente internacional de hegemonia americana e escassez petrolífera, o regime angolano tornou-se pragmaticamente pró-ocidental. A UNITA sobrevivente integrou o governo, sempre de forma relativamente dócil, e o petróleo fez o resto do milagre, que tem fascinado inúmeros empresários. As legislativas de 2008 não põem o poder de José Eduardo dos Santos em causa.
O regime quer ter legitimidade indiscutível e o Presidente deseja ser visto como o autor da paz e garantir a reeleição, no próximo ano, mesmo que não cumpra o mandato até ao fim. Nesta fase, não existe sucessor visível, embora alguns sectores, mesmo do partido maioritário, mostrem impaciência

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