As feridas invisíveis da guerra

 

As feridas invisíveis da guerra

Por: Dr.Manuel Utondosi (Ph D em Psiquiatria)

angoterra:18-03-2008-1526

A guerra e a paz enquanto dois processos sociais, que concorrem para o mal (a guerra) e para o bem (a paz) do homem espelham bem a complexidade da interacção dos grupos sociais no processo da luta pelo poder. As noções de guerra e paz assemelham-se a uma face de duas moedas: numa das faces estampa-se o carácter destrutivo e noutra cunha a necessária reabilitação das sequelas sociais,económicas e psicológicas, causadas por aquela.

A Paz é como a ponte de um iceberg e, se a comparação faz sentido, então noventa por cento dos casos de cura das feridas ocasionadas pela guerra ficam por sarar, mas nem por isso,as menos importantes de se referir.O problema das sequelas de uma guerra é, geralmente, relegado para o segundo plano. Os meios de comunicação e as instâncias internacionais prestam maior atenção ao decurso de uma guerra (com o lucrativo negócio de armas) mas, após o seu término, parecem ignorar as formas (sucessos e retrocessos) como uma determinada sociedade, que tenha passado por tal hecatombe, se recompõe da mesma.

A razão de ser desta pequena introdução advém de duas experiências vividas pelo seu autor. Em primeiro lugar, o facto de ter participado, há dias, numa conferência sobre o distúrbio de stress pós-traumático de guerra ocorrido cá em Nova York, onde resido, e cuja tónica dominante se pós nas lesões psicológicas, geralmente, recalcadas no decurso da guerra, graças à luta pela sobrevivência das pessoas, mas, tal qual um vulcão, são susceptíveis de explodir com o advento da Paz. Em segundo lugar, o facto de o Tribunal Penal Internacional, formalizado em Nova York, estatuir como crimes de guerra os genocídios (assassinatos, torturas sistemáticas, estupro,escravidão, etc.) e pouco ou quase nada dizer sobre os traumas psicológicos que advêm de toda essa situação.A fim de se seguir o fio do nosso pensamento começaremos por uma incursão, quiçá complexa, sobre a natureza do distúrbio de stress pós-traumático que é uma desordem de ansiedade mais comum em indivíduos que estiveram expostos à guerra.

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais, DSM-IV (1997), o distúrbio de stress pós-traumático(PTSD), “é uma desordem de ansiedade que consiste no desenvolvimento de sintomas característicos, seguindo-se a um acontecimento psicologicamente doloroso, que est fora da faixa habitual da experiência.” Por exemplo, os soldados expostos a combates permanentes, as populações vítimas do conflito ou mesmo as mulheres, em situações normais, mais por motivos de violência´, podem desenvolver este distúrbio. Neste caso concreto, as razões assentam, em primeiro lugar, na sua vulnerabilidade como mulheres em contextos de países em desenvolvimento, como o é o de Angola e, em segundo lugar, por serem as mais vulneráveis aos conflitos armados e ao stress provocado pela instabilidade política, social e económica de um determinado país,correndo,por isso, maiores riscos de se exporem ao trauma. O conceito de distúrbio de stress pós-traumático, como não podia deixar de ser, tem a sua história, que é descrita por Trimble,(1985), cujo surgimento veio a preencher o grande vazio existente na teoria e na prática psiquiátricas. O aspecto fulcral desta teoria foi a postulação de princípios segundo os quais o agente etiológico, ou evento taumático, devia estar fora do indivíduo e, como nos diz Kessler et al. (1996), não seja inerente a uma fraqueza individual do sujeito.

A evolução do conceito em análise também se põe de manifesto nas várias edições do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais (DSM-III) que, numa primeira fase, concebia como eventos traumáticos a guerra, tortura, estupro, holocausto nazista, catástrofes naturais (terramotos, furacões e erupções vulcânicas), bem como catástrofes provocadas pelo homem ( explosões nas indústrias, acidentes aéreos e de viação), diferenciado-os, claramente, de outros stressores também dolorosos, e que fazem parte do nosso dia-a-dia (divórcio, falha, rejeição, doença grave, reveses financeiros e afins) com transtornos de ajustamento, e não (PTSD).

Apesar disso, o distúrbio de stress pós-traumátcio é um diagnóstico relativamente novo que foi definido, com maior precisão, pela primeira vez, na terceira edição do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais (DSM-III) da Associação dos Psiquiatras Americanos (APA) em 1980. Durante muito tempo, a maior parte dos estudos preocupou-se em diagnosticar a presença do distúrbio de stress pós- traumático (PTSD) em veteranos de guerra no Vietname. Mais recentemente, o interesse pelos efeitos de uma experiência traumática sobre o comportamento humano estendeu-se para outros lados do trauma como os causados por desastres naturais, violência ou acidentes graves. A verdade é que isso permitiu uma maior compreensão dos factores envolvidos neste transtorno, bem como a pouca consistência das diferentes hipóteses. Acrescente-se, não obstante, que é um dado adquirido (embora por explicar) o facto de se ter reconhecido que nem todas as pessoas, mesmo passando por uma experiência traumática, desenvolvem esse transtorno (APA,1980).

O distúrbio de stress pós-traumático (PTSD), é peculiar entre outros diagnósticos psiquiátricos devido à grande importância dada ao agente etiológico, o stressor traumático. A Associação dos Psiquiatras Americanos (1980), caracteriza os seguintes critérios de diagnóstico:

O critério “A”: exposição a um evento catastrófico - envolve a morte ou ameaça à integridade física de si. A resposta objectiva do sobrevivente é o medo intenso impotência ou horror.

O critério “B”: evocação intrusiva ou revivência do acontecimento- inclui sintomas que talvez sejam os mais distintivos, prontamente identificáveis do PTSD. Para indivíduos com PTSD, o evento traumático permanece, algumas vezes, por décadas ou toda a vida, como experiência psicológica dominante que retém o poder de evocar pânico, terror, pavor, apreensão, aflição ou desespero, manifestados em fantasias diurnas, pesadelos traumáticos e reconstituições psicóticas conhecidas como “flashbacks” do PTSD. Além disso, estímulos traumamiméticos que desencadeiam evocações do evento original, têm o poder de evocar imagens mentais, respostas emocionais e reacções psicológicas associadas ao trauma. O acontecimento traumático é, persistentemente, revivido em ao menos um dos sintomas acima expostos.

O critério “C”: insensibilidade ou entorpecimento ou evitamento- consiste em sintomas, que reflectem estratégias comportamentais, cognitivas ou emocionais. Nesta linha de ideias os pacientes com distúrbio de stress pós-traumático (PTSD) procuram reduzir a probabilidade de se exporem a estímulos traumamiméticos ou, se expostos, minimizarão a intensidade da sua resposta psicológica. É de referir que o comportamento de evitamento assemelha-se à agorafobia, porque o indivíduo com o distúrbio de stress pós- traumático,(PTSD) tem medo de sair de casa, por temor de se confrontar com lembranças do evento traumáticos.

O critério “D”: Activação fisiológica (neuro-vegetativa) ou hiperestimulação. Neste caso os sintomas mais usuais são a insónia e irritabilidade genéricos na ansiedade, sendo a hipervigilância que algumas vezes se pode tornar tão intensa, ao ponto de se assemelhar com a paranóia. O critério “E”: de duração específica. Quanto ao tempo os sintomas devem persistir para que possam ser qualificados para o diagnóstico de PTSD crónico ou tardio. No DSM-III, a previsão é de seis meses, enquanto que no DSM-III-R, é de um mês, tendo aí permanecido no DSM-IV.

O novo critério “F” refere-se ao facto de que o sobrevivente deve experimentar um grande sofrimento social, ocupacional ou outro em decorrência destes sintomas.O quadro de Angola, fruto de uma guerra sem sentido, não podia ser dos mais desoladores: grande parte dos militares (da Unita ou do Governo), deve padecer terrivelmente dessa doença, cujas consequências, a nível social, são ainda imprevisíveis, uma vez que a exposição ao combate é uma experiência extremamente fatigante ou exaustiva que pode, inclusivamente, afectar o funcionamento psicomotor (Grinker e Spiegel,(1945). Isso para não falar de uma grande franja populacional onde famílias inteiras foram dizimadas e forçadas a viver em condições desumanas, criando viúvas, órfãos e uma pobreza generalizada.

Estes factos permitem-se chegar as seguintes conclusões: (1) as acções de recuperação dos efeitos da guerra não deveriam ignorar o lado psicológico das vítimas, sobretudo dos ex-soldados (acantonados ou não), mulheres e crianças; (2) uma eventual discussão sobre os crimes de guerra deveria, de igual modo, tomar em consideração os causadores de tamanho sofrimento às populações que se prolongará durante toda a vida destas.A Paz significa ausência de guerra, mas a sociedade deveria fazer tudo por tudo para evitar que a guerra de ontem se convertesse numa guerra pessoal, silenciosa onde a vitima não teria uma arma sequer para se defender do terrível flagelo que é o PTSD.

 


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Commentaires (1)

1. Felipe (site web) 12/04/2012

eu tenho vontade de mataaaaar... tenho um trauma quando eu fui treinado pelo exercitos dos estados unidos eu virei americano.. saiu na rua pensando como foi tudo que passei no iraque e na minha casa olho para os lados e parece que ainda estou la tiroteio , mortes, crianças.....
não aguento mais isso me ajude por favor isso existe algum tipo de tratamento

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