difícil vida de ser imparcial.

 difícil vida de ser imparcial.

Já diziam os antigos gregos, "o homem é um cidadão por excelência". Nessa afirmação que carrega tanto conhecimento e informação encontramos também uma das conseqüências temíveis do ser humano como sujeito racional e político. Que é a de assumir-se como sujeito e cidadão que deve tomar, sempre, partido em seu ambiente ou círculo social.

Para os emocionalmente despercebidos tomar partido aqui não significa que estamos fazendo referência a tradicional militância partidária já conhecida por todos. Aqui a expressão simplesmente significa posicionar-se, social, cultural e filosoficamente perante os problemas que afligem a uma determinada sociedade, ou mesmo a humanidade.

Minha vizinha, por certo uma mulher inteligente e evangélica, disse-me uma vez: você começa a fazer política logo de manhã ao dar, ou não, um bom dia ao seu vizinho. Pode parecer simples retórica de quem gosta de filosofar, mas tem uma carga de verdade que deve ser bem considerada e que todos nós devemos apreender a valorizar.

O mundo em que vivemos exige, e atenta contra a difícil, e impossível missão de sermos imparcial. Desde que a espécie humana tomou consciência da sua existência sobre a terra isso quase se tornou impossível e ridículo.

Vivi treze anos num país comunista onde a imparcialidade, por justa razão, era vista como um deboche aos valores sociais. Ser imparcial equivalia estar do outro lado do "muro". Aprendemos, todos nós, que a imparcialidade era sinônimo de indiferença, egoísmo, desrespeito e desvalor à cultura humana, à civilização humana. Era tão difícil ser imparcial que podia significar, para cada um de nós, negar a existência de si mesmo, de cada um de nós. E isso não é diferente para quem está no lado oposto do "muro". Isso não é diferente para quem vive em Angola, para quem escreve no Jornal de Angola, para quem dá o primeiro bom dia, ou o último boa noite na Radio Nacional ou na TPA. Não é diferente, até mesmo para quem escreve no club-k.net, e até mesmo para o bando de comentaristas malcriados que escrevem suas opiniões aberrantes, de conteúdo ofensivo, violento e agressivo de baixo dos artigos de quem tenta expor sua opinião e ponto de vista nesse clube.

A imparcialidade, dizem os comunistas cubanos, "é sinônimo de traição e covardia". "O imparcial é aquele que está em cima do muro, e quem está em cima do muro leva bala dos dois lados, sem contar que tarde ou cedo se acaba revelando um militante do lado oposto". Claro, que não estou aqui fazendo apologia à violência, é só uma força de expressão.

Por outro lado, e respeitando os mesmo, mas não concordando, não faltam os que alegam em suas profissões ou relações sociais a imparcialidade (política), muitas vezes proclamada e poucas vezes vista. Dizem que existe, até, o jornalista imparcial! Se for verdade é impressionante e assustador. Assustador o poder de transformação da burguesia ou do capitalismo em reduzir tudo em bagatela. E impressionante nossa débil capacidade de defender-se perante ela. Será que os filósofos por aí, também são imparciais? O Homem, o homem é imparcial? Este homem que vive em função de fazer política dia a dia, e que sem a mesma vira um selvagem.

O difícil mesmo é saber como ser imparcial perante o terror político, perante a mentira, os longos anos de guerra, perante a corrupção que se tornou um fenômeno de classe e político; perante a miséria que mata cada uma das nossas crianças e provocando um destino desastroso na vida de cada um de nós. Em poucas e muitas palavras perante à burguesia que num país como Angola dá-se o direito de sentir-se cômoda e vitoriosa.

Perante à burguesia que num país como o Brasil é tão indiferente as dezenas ou até centenas de mortes, que o jornal Folha de São Paulo cansou-se de publicar, de crianças indígenas que morrem por desnutrição, lá no Mato Grosso do Sul e em outros lugares do país. Mesmo sendo um país com quase duzentos anos de independência e com cento e cinqüenta anos de democracia, ou se quiserem mais, de alternância de poder; o país da paz e em paz, como dizem os donos da terra. O que ninguém explica por aí, num país como Brasil, é como ser imparcial perante o racismo, que virou racismo "solidário", repugnante e debochado. E como ser imparcial perante a milhões de cidadãos negros e seus descendentes favelados que são tratados como bichos pelo próprio poder público.

Eu, não sou imparcial!

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