O 25 DE ABRIL E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS IMEDIATAS EM ANGOLA

O 25 DE ABRIL E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS IMEDIATAS EM ANGOLA

O "25 de Abril" em Portugal surpreendeu a UNITA, dadas as condições de isolamento em que vivia. Não tínhamos quaisquer meios materiais, nem quaisquer apoios no exterior, para que pudéssemos imediatamente elevar-nos ao nível das exigências dessa etapa.


Pg. 29 – 37. O "25 de Abril" em Portugal surpreendeu a UNITA, dadas as condições de isolamento em que vivia. Não tínhamos quaisquer meios materiais, nem quaisquer apoios no exterior, para que pudéssemos imediatamente elevar-nos ao nível das exigências dessa etapa.

É verdade que, desde há algum tempo, pressentíamos, pelo registo de um ou outro acontecimento, que alguma coisa de insólito levedava em Portugal. Nas matas, verificávamos, por exemplo, que a combatividade das forças portuguesas estava a diminuir, por causas que não podíamos determinar devidamente, mas que representavam uma mudança evidente da sua acção. As tropas portuguesas penetravam nas matas, acampavam, passavam semanas no mesmo lugar, sem efectuar patrulhamentos, o que para nós era indício de que o seu moral combativo estava a desagregar-se.

Em Setembro de 1973, a UNITA decidiu lançar uma ofensiva contra as posições portuguesas, nas áreas de Saiesa (Luando), Alto-Cuito, Cassamba e Munhango. Obtivemos alguns resultados favoráveis. Mas foi só em Janeiro seguinte que as forças portuguesas entenderam ripostar, com maior violência, a esses ataques da UNITA. A ofensiva desencadeada então no Kuépi, no Munhango e no Luso contra as nossas posições não teve paralelo com qualquer das lançadas contra o MPLA e a FNLA. Os "comandos" invadiram as nossas áreas, mas, apesar disso, não tivemos grandes perdas.

Nesse mesmo mês de Janeiro, tivemos conhecimento, através de alguns dos nossos amigos, da publicação do livro de Spínola, "Portugal e o futuro". Compreendemos então que Portugal estava a sofrer os efeitos desgastantes de uma guerra colonial, feita em quatro ou cinco frentes.

O livro do general Spínola afigurou-se-nos como uma tentativa de reformar, de liberalizar o fascismo. Porém, na minha convicção analítica, isso não era possível, pois o fascismo não se pode reformar. O fascismo existe sustentado por órgãos de repressão, fanáticos ou fanatizados: o exército, a polícia política, organizações de juventude, pseudo-partidos políticos, a burguesia nacional, o capital financeiro. Daí que, quando se tenta reformá-lo ou liberalizá-lo, o fascismo desaba. O livro de Spínola convenceu-me logo de que o fascismo tinha os seus dias contados em Portugal.

Por isso mesmo, na sequência de uma reunião nossa realizada em Janeiro, pedi ao secretário-geral, Miguel N'Zau Puna, e ao comandante-chefe Samuel Chiwale, que se deslocassem à vizinha Zâmbia, para se informarem das posições com que poderíamos contar no exterior, no caso de se concretizarem as minhas suspeições a respeito de Portugal. É que a Zâmbia havia, entretanto, modificado a sua atitude e estava a cooperar com a UNITA mais favoravelmente.

Partidos em Janeiro, N'Zau Puna e Samuel Chiwale regressaram às matas em Março. Haviam sido bem recebidos e haviam também aproveitado a oportunidade de consolidar as nossas relações com a Zâmbia. Ambos traziam também a opinião, confirmada durante essa viagem, de que algo de anormal se estava passando em Portugal. Reunimo-nos na base de Luemba, com o propósito de programar uma nova viagem ao exterior de uma delegação da UNITA, a fim de consolidar amizades de que tanto carecíamos. Simultaneamente, preparámos as nossas forças armadas, para continuar a atacar o inimigo.

Assim foi que a 26 de Abril, isto é, no dia seguinte ao da eclosão do golpe de estado em Portugal, as tropas da UNITA, comandadas pelo então major Lumumba, emboscaram uma companhia militar portuguesa perto do Cuépi (Alto-Cuito), a qual foi totalmente destroçada. A propósito, convém recordar que, já depois do cessar fogo entre a UNITA e o inimigo, por toda a parte — no Huambo, em Saurimo, no Luso, no Lobito e em Luanda — os oficiais portugueses ainda procuravam saber quem havia dirigido a operação do Cuépi. E o próprio general Costa Gomes haveria de confessar, dias depois, em Luanda, que as tropas portuguesas nunca tinham sofrido, durante a guerra em Angola, desde 1961, uma emboscada de tamanha envergadura.

Surgido o "25 de Abril", impunha-se realmente à UNITA uma adaptação ao acontecimento, procurando uma estratégia e uma táctica adequadas, pois as mutações operadas em Portugal certamente acabariam por se reflectir na nossa luta. Acontecia, porém, que não sabíamos, exactamente, qual era o propósito do golpe de Estado efectuado em Lisboa. Podíamos avançar apenas suposições: ou o golpe tinha sido ocasionado por uma situação económica degradante, causada pela guerra — e nesse caso os seus promotores, para acabar com tal situação, teriam de negociar com os movimentos de libertação ou tentar dividi-los; ou traduzia uma luta entre os vários grupos económicos, que utilizavam o exército. Nesta última hipótese, não haveria que esperar qualquer mudança no curso da guerra colonial.

Por nossa parte, não tínhamos outros dados, que permitissem interpretação diferente. Entretanto, o presidente do MPLA, Agostinho Neto, havia sido o primeiro a encontrar-se com representantes do Governo português (Mário Soares) em Bruxelas, e ainda com outros representantes em Genebra, como revela o general Spínola no seu recente livro "País sem rumo".

Por seu turno, nesses primeiros dias, os dirigentes da UNITA, através do relato de emissoras estrangeiras, iam-se pondo ao corrente de que elementos de outros movimentos de libertação estavam a contactar o governo de Lisboa, o que reputavam natural, pois os movimentos combatiam contra Portugal e, face a um acontecimento político de tamanha ressonância naquele país, lógico e necessário seria que eles, por esses contactos, procurassem informar-se do sentido do golpe de estado.


Dirigentes da UNITA em TERRA LIVRE DE ANGOLA (Fevereiro de 1978.
V. P. Chindondo, M. N'Zau Puna, J. M. Savimbi e J. Samuel Chiwale

(foto livro)

Agostinho Neto, sobretudo, mostrava-se particularmente activo. Em Montreal, falava com portugueses e fazia declarações. E também em Londres, Bruxelas e Genebra. Em contrapartida, havia muita gente que pretendia, queria, que a UNITA não contactasse o governo português. Foram — diga-se — tentativas semelhantes de deter o exclusivo do nacionalismo angolano, fraccionado desde o seu começo, que fizeram e fazem que a guerra fratricida em Angola não possa terminar, sem que os que se pretendem "dirigentes do povo angolano" aceitem o princípio da unificação.

Em 1974, Neto pretendia falar sozinho, em nome do povo angolano. Pretende-o ainda hoje. E essa é a razão da guerra em Angola. À semelhança de Neto, também Holden Roberto, através dos seus "padrinhos", não se deixou ficar quieto e efectuou contactos com o governo de Lisboa. Legitimamente, aliás, porque ele também combatia o colonialismo português.

Porque se pretendia então que a UNITA não procedesse de idêntico modo? Naturalmente que nós não aceitámos essa forma de discriminação e procurámos igualmente entrar em contacto com o governo português. Tínhamos de encontrar uma saída, pois estávamos nas matas, onde sempre havíamos lutado, e não dispúnhamos de escritórios em Lusaka, Kinshasa ou Brazzaville. Neste particular, lendo a minha homenagem, situada nesse tempo, ao padre António Araújo Oliveira, do Luso, que se prontificou a estabelecer entre a UNITA e o comandante militar português, general Franco Pinheiro, os contactos que haveriam de conduzir ao acordo de cessar-fogo, assinado em 14 de Junho de 1974.

Muito foi dito sobre a oportunidade desse acordo. O MPLA e a União Soviética, esta através da KGB, utilizaram as colunas da "Afrique-Asie" para a publicação de "cartas", pretendendo com elas denegrir o esforço único da UNITA, que combatera no interior, como mais ninguém. A nossa resposta a essa manobra caluniosa foi breve: limitámo-nos a pedir que a OUA, a ONU, o MPLA e a FNLA enviassem os seus delegados a Angola, para que, percorrendo todo o Leste, incluindo as cidades, pequenas vilas e povoações, eles pudessem encontrar uma só testemunha que tivesse presenciado as forças da UNITA a combaterem, lado a lado; com as tropas portuguesas contra qualquer dos outros movimentos de libertação. Claro que ninguém aceitou o repto, porque sabiam, de antemão, que sairiam envergonhados.

Melhor do que ninguém, os chefes militares na altura poderiam atestar a actividade combativa desenvolvida pela UNITA contra as forças de ocupação coloniais. Chefes como o próprio general Costa Gomes; oficiais como Vítor Alves, que comandou o aquartelamento do Ninda e de Santa Cruz do Cuando (ele, no Alvor, conversou comigo sobre a pretensa morte do nosso comandante Colunga); Melo Antunes, que comandou igualmente o aquartelamento de Ninda; e outros.

O facto de a direcção da UNITA ter sido a única a combater no interior, colocava os "messias" da libertação, como se pretendem os do MPLA, ou se pretendiam os da FNLA, numa posição de fraqueza.

A realidade era simples: ou os generais portugueses eram tão estúpidos que forneciam armas à UNITA para esta combater as tropas sob o seu comando, ou eram traidores; e, neste último caso, bom seria que um deles tivesse a coragem de se identificar como tal, perante a história da sua pátria.

Ontem como hoje, a nossa posição mantém-se a mesma: se combatemos no interior, era porque essa posição fazia parte da nossa filosofia política. E se hoje também estamos no interior a combater os russos e os cubanos, tal como ontem fizemos em relação aos portugueses — a FNLA prestou-se também, durante algum tempo, a travar igual combate, mas a partir do Zaire — é porque nós tínhamos e temos, em relação aos outros, caminhos e pontos de vista diferentes. Aliás, se assim não fora, certamente que, ao longo destes três últimos anos, já teria sido possível ao MPLA capturar todos os dirigentes da UNITA.

Para lá da propaganda falaciosa, característica dos seus dirigentes, uma verdade é insofismável: o MPLA é um movimento que em Angola nunca criou raízes entre a população. E nunca as há-de criar. O apoio do povo não se improvisa. O apoio do povo gera-se, cria-se através de uma comunicação perfeita entre a filosofia política e a vivência real das populações e através do sofrimento compartilhado entre os dirigentes e o seu próprio povo. É este um problema que confunde o MPLA. Os homens mobilizados pela UNITA no passado, as áreas organizadas simultaneamente no interior pelo nosso Movimento, estarão sempre ligados aos ideais da UNITA, porque entre nós e essas populações há um passado único: sofrimentos e humilhações em comum, combates comuns travados contra o colonialismo português.

 

Daí, que todos os anos organizássemos uma conferência anual do Movimento — assembleia da mais lídima expressão democrática, onde dirigentes e dirigidos trocavam impressões e debatiam problemas de interesse comum com a maior franqueza. Faziam-se, no decurso delas, críticas muitas vezes acérrimas a qualquer dos dirigentes sobre a condução da guerra, os meios nela postos e a sua utilização e o respeito das regras da liberdade individual no âmbito de um combate colectivo.

Enquanto, por exemplo, o MPLA só organizou o seu congresso depois da Independência, a UNITA realizou o seu quarto congresso em 1977, em plena mata, como aliás acontecera com os anteriores: o primeiro no Muangai; o segundo em Sachibanda; o terceiro em Luvemba; e o quarto no distrito do Huambo. No nosso combate no interior, isolados como estávamos do resto do mundo, desprovidos de todos os meios materiais e de apoio diplomático, nós tínhamos a necessidade imperiosa de reforçar a unidade entre dirigidos e dirigentes, para que, através dela, pudéssemos suplantar as limitações provenientes da falta do apoio externo.

É por essa razão que os militantes da UNITA e os seus oficiais e soldados concedem a mais total confiança na Direcção do partido. Ao longo de oito anos duros de combate, os dirigentes sempre estiveram próximos dos soldados é do povo. E isso gerou a confiança mútua. Quando se enfrentam as mesmas condições precárias de luta, quando se experimentam as mesmas condições de incomodidade, quando o sofrimento é igualmente repartido, a identidade resulta e não há jamais a tentação de oprimir o povo nem a apetência de usufruir privilégios em nome da revolução.

Hoje como ontem, a UNITA continua a acreditar que é essa vontade, é essa força voluntária e é essa entrega total que faz com que os seus dirigentes gozem no interior do País, no seio da população novamente oprimida e entre os soldados, de um prestígio que nenhum outro dirigente, seja do MPLA ou da FNLA, pode pretender ter ou vir a conquistar. É que o prestígio, no caso, não se conquista com discursos, propagandas falseadas, panfletos ou com armas ao ombro, em fotografias tiradas no Chikongo ou em Kinkusu, fora do território nacional, portanto. Alcança-se com factos, fotografados e arquivados na mente e no coração do povo, quando vê os seus dirigentes compartilharem os seus próprios sacrifícios quotidianos. Por essa realidade, por essa sinceridade, por essa comunhão íntima, os dirigentes da UNITA tiveram e têm a admiração incondicional do povo angolano.

Daí que, no futuro, os que quiserem continuar a dirigir o povo de Angola, não só para o libertarem do jugo temporário de russos e cubanos, como também para o encaminharem na concretização dos seus objectivos mais legítimos, que são a independência, o bem estar espiritual e a paz, terão de ter coragem e criar forças para se misturar com o povo. Este jamais esquecerá a solidariedade no sacrifício que se lhe oferecer.

Volto de novo às circunstâncias que levaram ao cessar-fogo entre a UNITA e as forças portuguesas. Os mentores do MPLA e da FNLA e outros inconfessados colonialistas jamais aceitaram, de boa mente, que a UNITA, sem recorrer a conselheiros, se tivesse apercebido, logo a seguir ao "25 de Abril", de que era preciso negociar com os portugueses. Ao fazê-lo, a UNITA averbou uma vantagem, que hoje é histórica: arriscou, negociou, de tal maneira que em 14 de Junho de 1974 havia conseguido um trunfo sobre a FNLA e o MPLA, que foi o de, a partir daquela data, ter podido livremente propagar os seus ideais pelo País fora, coisa que surpreendeu e confundiu os seus opositores. A FNLA e o MPLA só assinaram o acordo de cessação das hostilidades em Setembro e Outubro do mesmo ano, isto é, três e quatro meses mais tarde, respectivamente.

A vantagem que a UNITA havia conseguido, antecipando-se nas negociações, foi calculada, após análise realística da situação e suas consequências. Quando ocorreu o "25 de Abril" em Portugal, os movimentos de libertação de Angola encontravam-se exactamente na seguinte posição: o MPLA, absolutamente dividido, com os seus elementos mais activos desgarrados e uma direcção contestada pelas bases; na prática, existiam três MPLA — o MPLA-Neto, o MPLA-Pinto de Andrade e o MPLA-Chipenda —, e ainda a possibilidade de aparecerem dois outros, um formado pelos ex-presos de S. Nicolau e outro constituído por indivíduos recrutados nas camadas do "lumpen", em Luanda.

A FNLA mostrava-se também cansada, reduzida a sua actividade a incursões a partir da fronteira do Zaire, mas não obedecendo a nenhuma orientação coerente. Quanto à UNITA, apresentava-se como tinha sido sempre. Aceitamos que não tivesse muitos guerrilheiros no activo e que estivesse confinada numa área que ia desde a fronteira da Zâmbia até ao rio Cuanza. Mas, na sua fraqueza, a UNITA era, no entanto, o único dos três movimentos que tinha coesão e implantação no interior do território.

Aproveitando-se desses factos e assinando a paz com os portugueses, primeiro que os outros dois movimentos, a UNITA aumentou, por via disso, consideravelmente os seus trunfos. Só não o compreendeu quem seja avesso à lógica. A História veio a provar, felizmente, que foi correcta a nossa decisão, já que os outros dois movimentos cedo haveriam de seguir as nossas pisadas. Simplesmente, porque foram retardará rios e foram intransigentes. No início, as suas vantagens foram mínimas, dado que, ao reentrarem no território nacional, já lá encontraram a UNITA solidamente implantada.

Nos primórdios da sua implantação nacional, a UNITA lutou, o melhor que lhe foi possível para sobreviver. Para não se deixar liquidar pelas hostes do MPLA e da FNLA, que, apesar de formadas por compatriotas, contra ela conjuravam e combatiam. E para aguentar, também, a forte pressão das forças portuguesas, que tudo faziam para a dizimar. Segundo afirmações do general Barroso Hipólito e de outros generais que se sucederam no comando operacional do Luso, o objectivo número um dos portugueses era apanhar, vivo ou morto, o presidente da UNITA. Felizmente, todos regressaram a Portugal, sem o ter conseguido.

Foi preciso, portanto, que a UNITA, quando não podia ter pretensões de ganhar, porque lhe faltavam os meios materiais essenciais, adquirisse, como adquiriu, a capacidade presciente da sobrevivência. Tudo e todos a combateram. A tudo e todos resistiu. Aos ataques da tropa portuguesa e às suas manobras insidiosas, quando a PIDE, explorando a ignorância dos nossos soldados, os aliciava à traição, nomeando-os "presidentes da república dos Bundas", ou quando infiltrava os seus agentes, os "flechas", entre a nossa gente. À fraqueza dos seus próprios elementos, que se renderam à FNLA, para a seguir procurar introduzir no interior homens melhor treinados, com o objectivo de nos destruir. A UNITA sobreviveu também a uma campanha armada, que durou de 1969 a 1972, da parte do MPLA, e igualmente à pressão dos "comandos" portugueses que, durante seis longos meses, habitaram as nossas áreas.

E foi essa capacidade de resistência, que os adversários deviam ter a honestidade de publicamente reconhecer, que a credenciou a participar no processo de descolonização, em pé de igualdade com o MPLA e a FNLA, e muitas vezes até em posição cimeira.

Sobre este assunto, isto é, sobre a identificação que existe entre a UNITA e o povo angolano, eu tenho algo mais a acrescentar. No decurso do seu combate no interior do país, a UNITA aprendeu a ter fé na auscultação popular; a depender do diálogo com o povo, os "comités" locais, as assembleias populares; a escutar os pontos de vista dos soldados e oficiais.

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Commentaires (1)

1. meireles 04/02/2008

O PERCURSO De DR HUGO JOSÉ AZANCOT DE MENEZES

Hugo de Menezes nasceu na cidade de São Tomé a 02 de fevereiro de 1928, filho do Dr Ayres Sacramento de Menezes.

Aos três anos de idade chegou a Angola onde fez o ensino primário.
Nos anos 40, fez o estudo secundário e superior em Lisboa, onde concluiu o curso de medicina pela faculdade de Lisboa.
Neste pais, participou na fundação e direcção de associações estudantis, como a casa dos estudantes do império juntamente com Mário Pinto de Andrade ,Jacob Azancot de Menezes, Manuel Pedro Azancot de Menezes, Marcelino dos Santos e outros.
Em janeiro de 1959 parte de Lisboa para Londres com objectivo de fazer uma especialidade, e contactar nacionalistas das colónias de expressão inglesa como Joshua Nkomo( então presidente da Zapu, e mais tarde vice-presidente do Zimbabué),George Houser ( director executivo do Américan Commitee on África),Alão Bashorun ( defensor de Naby Yola ,na Nigéria e bastonário da ordem dos advogados no mesmo pais9, Felix Moumié ( presidente da UPC, União das populações dos Camarões),Bem Barka (na altura secretário da UMT- União Marroquina do trabalho), e outros, os quais se tornou amigo e confidente das suas ideias revolucionárias.
Uns meses depois vai para Paris, onde se junta a nacionalistas da Fianfe ( políticos nacionalistas das ex. colónias Francesas ) como por exemplo Henry Lopez( actualmente embaixador do Congo em Paris),o então embaixador da Guiné-Conacry em Paris( Naby Yola).
A este último pediu para ir para Conacry, não só com objectivo de exercer a sua profissão de médico como também para prosseguir as actividades políticas iniciadas em lisboa.
Desta forma ,Hugo de Menezes chega ao já independente pais africano a 05-de agosto de 1959 por decisão do próprio presidente Sekou -Touré.
Em fevereiro de 1960 apresenta-se em Tunes na 2ª conferência dos povos africanos, como membro do MAC , com ele encontram-se Amilcar Cabral, Viriato da Cruz, Mario Pinto de Andrade , e outros.
Encontram-se igualmente presente o nacionalista Gilmore ,hoje Holden Roberto , com o qual a partir desta data iniciou correspondência e diálogo assíduos.
De regresso ao pais que o acolheu, Hugo utiliza da sua influência junto do presidente Sekou-touré a fim de permitir a entrada de alguns camaradas seus que então pudessem lançar o grito da liberdade.

Lúcio Lara e sua família foram os primeiros, seguindo-lhe Viriato da Cruz e esposa Maria Eugénia Cruz , Mário de Andrade , Amílcar Cabral e dr Eduardo Macedo dos Santos e esposa Maria Judith dos Santos e Maria da Conceição Boavida que em conjunto com a esposa do Dr Hugo José Azancot de Menezes a Maria de La Salette Guerra de Menezes criam o primeiro núcleo da OMA ( fundada a organização das mulheres angolanas ) sendo cinco as fundadoras da OMA ( Ruth Lara ,Maria de La Salete Guerra de Menezes ,Maria da Conceição Boavida ( esposa do Dr Américo Boavida), Maria Judith dos Santos (esposa de um dos fundadores do M.P.L.A Dr Eduardo dos Santos) ,Helena Trovoada (esposa de Miguel Trovoada antigo presidente de São Tomé e Príncipe).
A Maria De La Salette como militante participa em diversas actividades da OMA e em sua casa aloja a Diolinda Rodrigues de Almeida e Matias Rodrigues Miguéis .


Na residência de Hugo, noites e dias árduos ,passados em discussões e trabalho… nasce o MPLA ( movimento popular de libertação de Angola).
Desta forma é criado o 1º comité director do MPLA ,possuindo Menezes o cartão nº 6,sendo na realidade Membro fundador nº5 do MPLA .
De todos ,é o único que possui uma actividade remunerada, utilizando o seu rendimento e meio de transporte pessoal para que o movimento desse os seus primeiros passos.
Dr Hugo de Menezes e Dr Eduardo Macedo dos Santos fazem os primeiros contactos com os refugiados angolanos existentes no Congo de forma clandestina.

A 5 de agosto de 1961 parte com a família para o Congo Leopoldville ,aí forma com outros jovens médicos angolanos recém chegados o CVAAR ( centro voluntário de assistência aos Angolanos refugiados).

Participou na aquisição clandestina de armas de um paiol do governo congolês.
Em 1962 representa o MPLA em Accra(Ghana ) como Freedom Fighters e a esposa tornando-se locutora da rádio GHANA para emissões em língua portuguesa.

Em Accra , contando unicamente com os seus próprios meios, redigiu e editou o primeiro jornal do MPLA , Faúlha.

Em 1964 entrevistou Ernesto Che Guevara como repórter do mesmo jornal, na residência do embaixador de Cuba em Ghana , Armando Entralgo Gonzales.
Ainda em Accra, emprega-se na rádio Ghana juntamente com a sua esposa nas emissões de língua portuguesa onde fazem um trabalho excepcional. Enviam para todo mundo mensagens sobre atrocidades do colonialismo português ,e convida os angolanos a reagirem e lutarem pela sua liberdade. Estas emissões são ouvidas por todos cantos de Angola.

Em 1966´é criada a CLSTP (Comité de libertação de São Tomé e Príncipe ),sendo Hugo um dos fundadores.

Neste mesmo ano dá-se o golpe de estado, e Nkwme Nkruma é deposto. Nesta sequência ,Hugo de Menezes como representante dos interesses do MPLA em Accra ,exilou-se na embaixada de Cuba com ordem de Fidel Castro. Com o golpe de estado, as representações diplomáticas que praticavam uma política favorável a Nkwme Nkruma são obrigadas a abandonar Ghana .Nesta sequência , Hugo foge com a família para o Togo.
Em 1967 Dr Hugo José Azancot parte com esposa para a república popular do Congo - Dolisie onde ambos leccionam no Internato de 4 de Fevereiro e dão apoio aos guerrilheiros das bases em especial á Base Augusto Ngangula ,trabalhando paralelamente para o estado Congolês para poder custear as despesas familhares para que seu esposo tivesse uma disponibilidade total no M.P.L.A sem qualquer remuneração.

Em 1968,Agostinho Neto actual presidente do MPLA convida-o a regressar para o movimento no Congo Brazzaville como médico da segunda região militar: Dirige o SAM e dá assistência médica a todos os militantes que vivem a aquela zona. Acompanha os guerrilheiros nas suas bases ,no interior do território Angolano, onde é alcunhado “ CALA a BOCA” por atravessar essa zona considerada perigosa sempre em silêncio.

Hugo de Menezes colabora na abertura do primeiro estabelecimento de ensino primário e secundário em Dolisie ,onde ele e sua esposa dão aulas.

Saturado dos conflitos internos no MPLA ,aliado a difícil e prolongada vida de sobrevivência ,em 1972 parte para Brazzaville.

Em 1973,descontente com a situação no MPLA e a falta de democraticidade interna ,foi ,com os irmãos Mário e Joaquim Pinto de Andrade , Gentil Viana e outros ,signatários do « Manifesto dos 19», que daria lugar a revolta activa. Neste mesmo ano, participa no congresso de Lusaka pela revolta activa.
Em 1974 entra em Angola ,juntamente com Liceu Vieira Dias e Maria de Céu Carmo Reis ( Depois da chegada a Luanda a saída do aeroporto ,um grupo de pessoas organizadas apedrejou o Hugo de tal forma que foi necessário a intervenção do próprio Liceu Vieira Dias).

Em 1977 é convidado para o cargo de director do hospital Maria Pia onde exerce durante alguns anos .

Na década de 80 exerce o cargo de presidente da junta médica nacional ,dirige e elabora o primeiro simpósio nacional de remédios.

Em 1992 participa na formação do PRD ( partido renovador democrático).
Em 1997-1998 é diagnosticado cancro.

A 11 de Maio de 2000 morre Azancot de Menezes, figura mítica da historia Angolana.

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