Obama convenceu e venceu - Jardo Muekalia

Obama convenceu e venceu - Jardo Muekalia
Washington – Aos 7 de Fevereiro de 2007, Barack Obama anunciou a sua candidatura a presidência dos EUA, a partir da varanda do Antigo Capitólio do Estado de Ilinois, lugar onde em 1858 Abraham Lincoln fez o seu histórico discurso contra a escravatura e em prol da unidade sob o tema, “Uma Casa Dividida Não Pode Manter-se de Pé”.

Dois anos depois, Lincoln concorreu e ganhou a presidência dos EUA. Porém, a sua vitória foi vista pelos estados do sul, cuja economia dependia da escravatura, como uma ameaça a sua existência e tão cedo se organizaram numa Confederação de Estados que se mobilizou para uma guerra de sucessão que opôs o sul ao norte. Confrontado com a realidade da “Casa Dividida”, Lincoln dirigiu o norte com uma vontade inquebrantável de defender a unidade dos Estados Unidos da América.

Em 1863, em plena Guerra Civil, Lincoln emitiu a Proclamação de Emancipação, que outorgava liberdade a todos escravos residentes nos estados da Confederação causando um êxodo de escravos em benefício dos Estados que defendiam a União. Terminada a Guerra, a Proclamação de Emancipação demonstrou ser insuficiente para garantir os direitos de cidadania aos antigos escravos. As liberdades experimentadas pelos negros no período pós-guerra, foram gradualmente suprimidas, principalmente nos Estados do Sul, a medida que estes ganhavam maior autonomia do Governo Federal.

Durante a primeira metade do século XX, o racismo era praticado de forma aberta e sustentado pela força da lei. Esta situação levou ao surgimento do Movimento para os Direitos Civis dos anos 50/60, que atingiu o seu ponto mais alto com a liderança do Dr. Martin Luther King assassinado em Abril de 1968. Quarenta anos depois da sua morte, o sonho que partilhou com a nação e com o mundo, revela-se na sua expressão mais concreta, com a eleição do primeiro Negro Americano a presidência dos EUA. Este acontecimento histórico de relevo impar, reflecte, sem sombra de dúvidas, o quanto este país mudou pois, a vitória de Obama não seria possível sem a mobilização significativa da população branca e latina. Todos os negros juntos, são apenas cerca 14% da população.

Parafraseando John F. Kennedy, Obama não era um candidato Negro a presidência, mas sim, um candidato a presidência que é Negro. Projectou-se como um líder transversal, um Negro beneficiário dos esforços do Dr. Martin King, mas com uma visão e um propósito nacionais. O resultado é inequívoco; Obama convenceu e os eleitores julgaram-no pelo conteúdo do seu carácter e não pela cor da sua pele, segundo profecia do Dr. King.

Audácia

Quando Obama anunciou sua intenção de concorrer a presidência, revelou uma audácia invulgar. Tinha como obstáculos vários factores que muitos analistas consideraram, na altura, intransponíveis. É negro de pai Queniano. Era pouco popular no seio da comunidade negra que o considerava “not black enough”. Tem um nome de fácil pronúncia mas, fora do habitual padrão europeu - depois do 11 de Setembro, era difícil acreditar que um Barack Hussein Obama, pudesse ser presidente dos EUA. Era novo na arena nacional e internacional, portanto sem experiencia. Tinha uma adversária formidável, Clinton, que esperava apenas por uma cerimónia de coroação. Obama soube transformar aquelas que seriam fraquezas em oportunidades. Usou a sua biografia para reforçar a sua transversalidade. Usou o seu nome para enaltecer a diversidade e as oportunidades que só existem na sociedade Americana. Usou a inexperiência como oportunidade para definir um novo rumo sem preconceitos do passado e definiu a sua principal adversária como parte de um passado que não se coaduna com as exigências do século XXI.

Em Julho último conseguiu finalmente, ser o primeiro negro da história do país a aceitar, em convenção nacional, a nomeação do seu partido a candidato na corrida presidencial. Seguiu-se a campanha contra McCain que, para todos os efeitos, foi menos dramática, do que a campanha contra Clinton. O partido republicano atravessa um momento difícil fruto da impopularidade das políticas de Bush. A Guerra do Iraque, a crise económica e financeira e o desemprego, entre outras, conspiraram contra McCain. Apesar disso, notou-se uma pequena inversão pro-McCain nos últimos dias que parecia ser, entre outras coisas, resultado do tom negativo adoptado por McCain/Pallin e outros operativos republicanos neste período, usando formas abertas e discretas para atingir os seus fins.

Por exemplo, apareceram panfletos anónimos na cidade de Norfolk - Virgínia, com a seguinte mensagem, “The White House is for White People”. Em sessões de campanha Obama foi acusado de socialista, radical, terrorista - enfatizando o seu nome Hussein, e antiamericano. No desespero, o fim justifica os meios. Estes adjectivos podem não ter demovido apoiantes de Obama mas, impeliram à acção alguns indecisos, sobretudo republicanos conservadores que se tinham remetido a passividade em protesto da nomeação de MCCain que consideram liberal. Diga-se em abono da verdade, que ainda existe neste sociedade, cerca de 10% do eleitorado nacional conservador que não votará para um Negro, pelo menos, na primeira metade deste século.

Uma Campanha Moderna

A campanha de Obama, entrará para os anais da história como a primeira do seu género e definirá os padrões das campanhas modernas, do século XXI. Foi capaz de combinar a tecnologia e os métodos tradicionais, melhorando a veiculação da mensagem e trazendo maior eficiência e veracidade a organização. Angariou quantidades inéditas de fundos através da Internet, formando ao longo do processo comunidades virtuais de apoiantes que foram expandindo mês após mês. Quando necessário, utilizou estas comunidades virtuais como manancial de voluntários ou para acções concretas tais como, fazer chamadas a indecisos, devidamente identificados.

Priorizou espaços virtuais concorridos pela juventude, tais como o My Space e o Facebook, tendo atraído para sua campanha uma percentagem considerável de jovens. O entusiasmo que criou aumentou o interesse da juventude pela política e desencadeou um movimento que, poderá durar uma geração salvo acontecimentos sociais de efeitos sísmicos. Quanto mais sucesso Obama teve, mais se mobilizou a oposição, criando um ciclo eleitoral com participação jamais vista na história do país. Obama criou uma organização que lhe permitiu optar por estratégias ofensivas em todo o território nacional forçando os republicanos a defenderem-se em casa. Assim, Obama protegeu os Estados de voto tradicional democrata, transferiu a batalha para o terreno dos outros e inverteu o sentido do voto em alguns Estados tradicionalmente republicanos.

Os Desafios do Futuro

Como Lincoln, Obama vem de Illinois, é novo na cena política nacional, é eloquente
e confrontará uma “Casa Dividida” pela guerra do Iraque, pelo estado actual da economia e pelo debate sobre a política tributaria. O próprio facto de Obama ser presidente, será motivo de resistência passiva dentro da Casa.

Politicas polémicas, terão um potencial maior de tensão entre democratas e republicanos sobretudo, se McCain não se dignar a conter as emoções que se foram manifestando no fim da campanha. Obama tem pela frente os desafios normais da função e outros acrescidos por ser o primeiro negro a ocupar aquela posição. Tem a “obrigação” de ser o melhor presidente que poder ser, não só para servir melhor o seu país, mas também para viabilizar o mesmo sonho a outros tantos “audazes” que o queiram emular neste século. Estarão brigadas de políticas e não só, a espera que falhe para poderem provar as suas próprias profecias.

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