OS “INFILTRADOS” E “O POVO EM GERAL”

OS “INFILTRADOS” E “O POVO EM GERAL”

O recente discurso do Presidente do MPLA, pronunciado aquando da abertura da VII sessão ordinária do seu Comité Central, despertou-me dois sentimentos singulares: por um lado, perplexidade e, por outro, alguma curiosidade.

A perplexidade derivou da afirmação de Eduardo dos Santos, segundo a qual estariam a circular textos, em nome de uma suposta corrente interna do MPLA, fazendo apologia da necessidade de se impor um regime de ditadura, com a finalidade de se promover um desenvolvimento mais rápido.

Não fiquei propriamente perplexo com o surgimento dos textos apologéticos de uma ditadura. Há muito imaginava que um dia qualquer, isso sucederia. Fiquei, sim, espantado pelo facto de Eduardo dos Santos não ter reconhecido aí as suas próprias impressões digitais, ou seja, a sua responsabilidade na emergência e, sobretudo, na persistência de tais ideias. O que mais ainda me espantou foi a sua escusa em reconhecer a condição de membros do MPLA aos autores desse discurso do passado.

Na realidade, Eduardo dos Santos esqueceu-se que não passou ainda muito tempo desde que ele mesmo afirmou que o Ocidente nos havia imposto a democracia… Estranhamente, Dos Santos também se esqueceu da imagem dos seus pares mais próximos fazendo, durante algum tempo, a defesa e a difusão da ideia de que a democracia era um produto importado, e, de tão estranho, até se tornaria indigesto para o estômago dos povos africanos… Eduardo dos Santos não tem agora, pois, que e como se espantar. São somente as reminiscências do velho regime que Dos Santos dirigiu. Eles reemergiram, e querem agora fazer ouvir a sua voz.

Eu penso que, durante muito tempo, o MPLA terá ainda que conviver com os adeptos do modelo ditatorial, pois foi justamente nessa cultura ditatorial que foram “formatados” muitos dos actuais “cérebros”, agora erigidos à condição de “democratas”, por artes mágicas... Tudo isso num processo rápido: bastou-lhes mudar de roupa, colocar roupa limpa, sem terem necessidade de tomar banho… Como diz o nosso povo: Agora, “está-se mal...”, o cheiro do sovaco continua o mesmo…

Muitos desses “cérebros” foram enviados para os “santuários” das “ditaduras do proletariado”, com a sacrossanta finalidade de, no seu regresso, se transformarem nos principais pilares do velho regime. Não há, pois, que estranhar, muito menos recusar-lhes a paternidade… São filhos, sim, senhor! Até chegaram a ser tidos como os filhos mais queridos…

Talvez o que diferencia os homens e as mulheres que escrevem os textos incómodos, é que eles estão hoje certamente mais velhos, também estão mais anafados, certamente mais ricos e sem justa causa. Estão agora, sobretudo, seguramente temerosos de uma verdadeira democracia, perante a qual temem sucumbir, por falta de competência e de habilidades.

A curiosidade a que me referi no início recaiu na afirmação de Dos Santos sobre o novo conceito de “Povo”. Hoje, Dos Santos recusa, publicamente, a velha ideia de “Povo”, aquela que animou o MPLA – Neto, e que teve também um longo percurso no MPLA – Dos Santos.

No “Povo” de então, nesses tempos, cabiam apenas “os operários, os camponeses e os ditos intelectuais revolucionários ou dedicados à causa do proletariado”. Mas, agora, deixou de ser assim, isso porque já não interessa, porque seria mesmo uma incómoda contradição com a nossa realidade actual.

No velho conceito de “Povo” não caberiam nunca, pois, os actuais dirigentes, agora transformados em donos de indústrias, latifundiários, feitos banqueiros, proprietários de imóveis, os lídimos parceiros nacionais dos interesses das multinacionais. Dir-se-ia na linguagem revolucionária: estão feitos burgueses! Ou, melhor ainda: são, afinal, os verdadeiros “lacaios do imperialismo”!

Impôs-se agora uma transformação semântica. Senão, deixaria de fazer qualquer sentido a seguinte frase de Eduardo dos Santos: “O partido está unido e forte e tem uma direcção coesa, que está consciente de que a sua missão essencial é aplicar as deliberações do seu V Congresso Ordinário para a construção de um país democrático, unido e próspero, com um Governo do Povo e para o Povo”.

 “(...) um Governo do Povo e para o Povo” Quando Dos Santos fala agora em “Povo”, certamente não se estará a referir ao “seu” povo do antigamente... Aquele, o do antigamente, era um conceito restrito, limitado, um conceito que convinha apenas ao processo revolucionário... Era um conceito político usado, sobretudo, para justificar o modo do exercício do poder, as exclusões que se foram arbitrariamente processando, toda a sorte de agressões morais e patrimoniais que se foram praticando.

 Portanto, temos já dois tipos de “Povo”: um, que é o mais lato, onde Dos Santos e o MPLA passaram a integrar todas as camadas e classes da sociedade angolana – e fizeram-no, usando o seu livre arbítrio, na sua conveniência; o outro povo, é apenas o que a sabedoria popular decidiu chamar “o povo em geral”.

 Nesse último conceito, cabem inteirinhos todos quantos estão hoje desprovidos de quaisquer privilégios. São os que se viram subtraídos até dos seus mais elementares direitos fundamentais. São a chamada “classe baixa”. São os que perderam toda a esperança, para quem há muito se esfumou a ilusão de estarem a governar... Não crêem já que alguém esteja a governar no seu interesse. Perderam tudo. Perderam até o “P” maiúsculo. Ficaram reduzidos, simplesmente, a “o povo em geral”...

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