A INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA


O autor

                                                                                                
                                                              Editorial Inquérito, Ldª
                                                Distribuição: Publicações Europa América
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General Gonçalves Ribeiro

CAPÍTULO 38

A INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA

Neste excelente livro o autor, relata minuciosamente o que se passou com a descolonização de Angola. Sugerimos vivamente a sua leitura a todos aqueles que estão interessados em saber a verdade sobre a descolonização e guerra em Angola. Como o livro tem copyright e não será fácil de adquirir àqueles que vivem em Angola, solicitamos a complacência da Editora e do Autor. Obrigado.

Pag.385 - Em princípios de Outubro, o Almirante Leonel Cardoso escrevia uma carta ao Presidente da República em que lhe expunha as suas preocupações relativamente à situação geral de Angola e pedia instruções sobre o modo como iria decorrer a transferência da soberania para o novo Estado. A resposta tardou, sendo recebida da parte do Ministro Victor Crespo, a 10 de Outubro, em termos assaz indefinidos e pouco esclarecedores.

Entrementes, raro era o dia em que o Alto-Comissário não promovia trocas de impressões, nas quais eu participava com frequência, para se tentar deslindar o quadro político-militar envolvente, até onde o conhecíamos, e, em paralelo, lucubrar sobre os possíveis cenários que rodeariam a data da independência.

O Almirante Leonel Cardoso mantinha, apesar de tudo, a esperança numa qualquer reviravolta nas posições assumidas e divulgadas pelas direcções políticas do MPLA e da UNITA, que desse alguma esperança, no futuro imediato, ao povo angolano e contribuísse para viabilizar, sem grandes sobressaltos, a transferência de poderes.

A minha postura era assaz diferente, baseada naquilo que entendia ser a visão realista e não pessimista do estado das coisas, suportada em todo um rol de expectativas goradas, de sucessivos arranjos tentados e nunca conseguidos pela parte portuguesa, desde o Acordo do Alvor, tudo, no presente, reforçado por uma sorte de "adrenalina política" que empolgava as cúpulas do MPLA e da FNLA na mira da conquista do poder.

Acrescia, ainda, parecer-me difícil, senão impossível, fazer reverter a dinâmica de guerra entre os três Movimentos, suster as movimentações militares dos respectivos braços armados - ELNA, FAPLA e FALA - e anular, de um momento para o outro, o efeito dos apoios declarados ou encobertos das grandes potências ou de potências regionais nos diferentes níveis político, estratégico e táctico.

Ocorrera entretanto a chegada do Ministro da Cooperação, Capitão de Fragata Victor Crespo, a Luanda, no princípio da semana de 20 a 26 de Outubro. Por entre as infrutíferas diligências e consultas que Victor Crespo realizou junto das direcções políticas da FNLA, do MPLA e da UNITA, durante aquela semana, o Almirante Leonel Cardoso e eu próprio havíamos sido entrevistados pela revista "O Século Ilustrado", saída a 25 de Outubro.

Entre as declarações ali proferidas, destaco, em síntese, as palavras do Alto Comissário revelando o desejo de que, nos últimos dias de Outubro, se pudesse assistir a uma evolução espectacular da situação, parecendo-lhe possível um entendimento entre o MPLA e a UNITA.

Da minha parte, dava o devido relevo às tentativas que continuavam a ser feitas para se alcançar o cenário desejável no dia 11 de Novembro, ou seja, uma plataforma de entendimento entre os três Movimentos; anotava como solução aceitável um acordo entre dois; mas, apontava a hipótese de nula convergência como a mais provável, donde só muito próximo do dia 11 de Novembro se saber como iria decorrer a transferência da soberania de Portugal para Angola independente.

O mês de Novembro, até ao dia 10, passou-se num misto de racionalidade exigente e de permanente, mas controlada excitação. Relativamente à Ponte Aérea e à Ponte Marítima, encerrou-se a primeira em 31 de Outubro, com um prolongamento até 3 de Novembro, embarcando ainda os últimos passageiros no paquete russo "Ocrania", em 5 de Novembro, e concluiu-se a Ponte Marítima com o carregamento de 1100 viaturas, de 7 a 9, no navio porta-viaturas "Grieg".

Na área militar, o dispositivo territorial circunscrevera-se à cidade de Luanda e ultimavam-se os preparativos do embarque para Portugal, apenas em transporte marítimo, do remanescente da nossa soberania, desde o Alto-Comissário às últimas unidades ali destacadas passando por todo o pessoal ainda em serviço no Alto Comissariado e nos diferentes Comandos Militares.

Simultaneamente, o Alto-Comissário recebia, em 2 de Novembro, o documento que os juristas haviam preparado para enquadrar a transferência de poderes segundo o Acordo do Alvor, mas também nos termos da situação, de facto, existente em Angola.

No dia seguinte, tomava-se conhecimento de que o Cônsul-Geral dos Estados Unidos partia definitivamente de Luanda, em cumprimento de instruções recebidas de Washington.

A 5 de Novembro, o Gabinete de Angola, em trabalho na Presidência da República, informava, a partir de Lisboa, que a Comissão de Defesa da OUA tinha uma reunião agendada para se debruçar sobre Angola e que, três dias depois, era suposto ter lugar nova reunião em Lourenço Marques/Maputo para tratar igualmente do problema angolano.

A 6 de Novembro, o Alto-Comissário apresentava as suas despedidas, em sessão normal do Conselho do Governo (que não já de Ministros), a todos os membros do último governo transitório de Angola. As despedidas oficiais aos Presidentes dos três Movimentos, naturalmente dependentes dos sistemas de comunicação existentes e dos afazeres de cada um, formalizaram-se entre 8 e 10.

Mas a questão fundamental, que a todos preocupava e, em especial o Alto-Comissário, era a definição do modo como se deveria processar a transferência de poderes na data da independência. O documento elaborado pelo juristas era uma base de trabalho, um parecer técnico que não substituía, de todo, a decisão política da exclusiva responsabilidade dos órgãos de soberania de Portugal.

Em 8 de Novembro, o Almirante Leonel Cardoso pressionava, telefonicamente, o Presidente da República e o Ministro da Cooperação pedindo, exigindo, que o tempo não permitia delongas, instruções cabais sobre o que iria acontecer nos próximos dois ou três dias. No dia 9, chegava um emissário do Ministro Victor Crespo, expressamente enviado a Luanda para entregar em mão, ao Alto-Comissário, o documento com a posição oficial dos órgãos decisórios portugueses sobre a transferência de poderes, em que se admitiam três hipóteses:

A - Saída a 10 de Novembro, continuando a reconhecer os três Movimentos e entregando a soberania ao povo angolano;

B - Aceitação e reconhecimento de um Governo de Unidade Nacional composto por entidades não directamente ligadas a qualquer um dos Movimentos;

C - Reconhecimento do MPLA como único representante do Povo Angolano, entregando-lhe o poder.

Cerca das 19 horas do mesmo dia, 9 de Novembro, desembarcava inesperadamente no aeroporto de Luanda um oficial do Gabinete de Victor Crespo para informar, por incrível que pareça, a existência, ainda, de algumas dúvidas sobre a adopção das modalidades A ou B. Adicionalmente, fazia saber que o Ministro da Cooperação partiria de Lisboa para a capital angolana no voo das 23 horas, em representação do Presidente da República, o qual, no interim, enviara uma mensagem ao Dr. Agostinho Neto.

10 de Novembro tornou-se de facto, um dia de referência histórica quer para Angola, quer para Portugal, antecedendo o marco incontornável da data da independência. De madrugada, o Alto-Comissário recebia um telefonema do Presidente da República informando que deveria ser adoptada a hipótese A, decidida após reunião do Conselho de Ministros e da Comissão Nacional de Descolonização.

Na baía de Luanda encontrava-se já agrupada uma força naval constituída por duas fragatas, uma corveta, o navio petroleiro "S. Gabriel" e dois navios de passageiros, o "Niassa" e o "Uíge".

De manhã, bem cedo, encontrávamo-nos no salão da biblioteca da residência oficial, adstrita ao Palácio do Governo, o Almirante Leonel Cardoso, eu próprio, o General Heitor Almendra, o Coronel Pil. Av. Ferreira de Almeida e o Capitão de Fragata Martins e Silva, os quatro últimos, todos do mesmo curso de entrada na Escola do Exército/Academia Militar, de onde o Martins e Silva, no final do primeiro ano, sairia para ingressar na Escola Naval.

A conversa não era muita. Depois da vertigem dos últimos dias instalara-se como que uma sensação de vazio no espírito e na alma dos presentes. Já pouco mais havia a fazer. Não era assim que se esperava a separação do país, porventura dos seis espalhados pela África e pela Ásia, o mais irmão de Portugal.

Das areias de Portugal, anunciadas pelo gajeiro, ninguém presente, além dos presentes. Quão poucos! Não davam para encher dois navios de passageiros. Foram entretanto chegando o Brigadeiro Telo, o Capitão de Mar e Guerra Gabor Patkoczi, mais alguns oficiais. E muitos jornalistas da televisão, rádio e imprensa, angolanos, portugueses e estrangeiros, convocados para ouvirem a declaração da independência de Angola.

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Cerimonia da Indepedência de Angola (foto livro)

O Alto-Comissário tinha o discurso preparado. E proferiu-o, com inicio às 12 horas e 10 minutos, no imponente salão nobre do Palácio do Governo, rodeado de todos os seus colaboradores mais directos e de alguns membros do Governo de Transição tendo como única audiência os jornalistas ali presentes.

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Almirante Leonel Cardoso proferindo o dircurso na Cerimónia da Independência
(foto cedida por Leonel Cardoso-filho)

Após breves palavras de abertura dirigidas a Angolanos e Portugueses, concentrou-se nos órgãos da comunicação social: "Dirijo-me também, por vosso intermédio, ao resto do mundo para que tome conhecimento da forma pela qual Portugal se viu na necessidade de proceder à concretização do importantíssimo acto que hoje se realiza.

Lamento sinceramente não me ser possível tomar parte em qualquer cerimónia comemorativa da hora maior na vida do Povo Angolano, dado que, fazê-lo, nas actuais circunstâncias, equivaleria da parte de Portugal a uma ingerência no sagrado direito que assiste àquele Povo de decidir o seu próprio destino."

E mais à frente. "A única recriminação que (Portugal) poderá aceitar é a ter dado provas de extrema ingenuidade política quando concordou com certas cláusulas do Acordo do Alvor. Daí em diante os acontecimentos foram progressivamente fugindo ao seu controlo, à medida que o conflito se internacionalizava e melhorava rapidamente a qualidade e aumentava a quantidade do material de guerra que entrou em Angola por todos os meios.

As cúpulas dos três Movimentos, reunidos em Nakuru, há pouco mais de quatro meses - desta vez sem a presença de Portugal - fizeram uma honesta autocrítica em que unanimemente se consideravam os únicos responsáveis pelos insucessos na execução do que acordaram no Alvor. Mas foram demasiado austeros para consigo próprios pois as culpas cabem menos aos Movimentos do que às potências que colocam nas suas mãos armas mortíferas com que o povo angolano se destrói".

Seguidamente proclamou a independência de Angola, nos seguintes termos: "Portugal nunca pôs, nem poderia pôr em causa a data histórica de 11 de Novembro, fixada para a independência de Angola, que não lhe compete outorgar, mas simplesmente declarar. Nestes termos, em nome do Presidente da República Portuguesa, proclamo solenemente - com efeito a partir das O horas do dia 11 de Novembro de 1975 - a independência de Angola e a sua plena soberania, radicada no Povo Angolano, a quem pertence decidir as formas do seu exercício."

Acrescentou ainda:"E assim, Portugal entrega Angola aos angolanos depois de quase 500 anos de presença, durante os quais se foram cimentando amizades e caldeando culturas, com ingredientes que nada poderá destruir.

Os homens desapareceram mas a sua obra fica. Portugal parte sem sentimentos de culpa e sem ter que se envergonhar. Deixa um país que está na vanguarda dos estados africanos; deixa um país de que se orgulha e de que os angolanos podem orgulhar-se".

E a concluir, depois de exprimir os mais profundos e melhores votos pelo fim da luta fratricida, também pela paz, felicidade e justiça social do povo angolano e ainda pela perenidade de laços fraternos e de respeito mútuo entre os dois povos, declarou: "São estes os votos muito sinceros do último representante da soberania Portuguesa em Angola que, hoje, à meia noite, partirá sem celebrações, mas de cara levantada.

VIVA PORTUGAL ! VIVA ANGOLA INDEPENDENTE ! "

Seguiu-se uma refeição privada, a última, na sala de jantar da residência, finda a qual houve a comovente despedida de todos os empregados ali em serviço, destacando-se o profissional competente e dedicado, de seu nome Gaspar. Que será feito dele?

Nos jardins traseiros do Palácio havia-se concentrado um destacamento do Agrupamento Blindado do Major Moreira Dias que, ao princípio da tarde, escoltava o Alto-Comissário e todos os seus colaboradores até ao largo adjacente à entrada da Fortaleza de S. Miguel, onde se encontrava hasteada a última bandeira portuguesa.

A cerimónia do arriar da bandeira foi feita com todas as honras por uma força conjunta de fuzileiros, cavaleiros e pára-quedistas, na presença do Almirante Leonel Cardoso, que tinha a seu lado o General Heitor Almendra, o Brigadeiro Telo, o Capitão de Mar e Guerra Gabor Patowski, o Coronel Pil. Av. Ferreira de Almeida, eu e o Tenente-Coronel "pára-quedista" Ramos Gonçalves. Arriada a bandeira, às 15h30, por um marinheiro enquadrado por dois cabos, um de cavalaria e outro pára-quedista, foi de seguida depositada nas mãos do Almirante Leonel Cardoso, que a passou ao ajudante de campo.

Seguiu-se um cortejo automóvel até à base naval situada na ilha de Luanda. Dali saímos, às 16hl5, em lanchas da Armada até ao "Niassa", onde embarcámos. A bordo, também, o Batalhão de "paras" do Ten. Cor. Ramos Gonçalves. No "Uíge" embarcava o Agrupamento Blindado do Major Moreira Dias e a pequena Força de fuzileiros constituída pela Companhia do 1.° Tenente Mateus e pelo Destacamento do 1.° Tenente Correia Graça. Jantámos a bordo, ouvindo o som cavo dos motores dos navios e paquetes ancorados na baía de Luanda.

Poucos minutos antes da meia noite foram levantadas as âncoras, pondo-se o conjunto dos navios em movimento para a saída da baía e, depois, rumo ao norte. E na serenidade da noite escura angolana, quente, acolhedora, recordo, como se fora um filme, o espectáculo de luz e som que, à meia noite em ponto, irrompeu subitamente na cidade de Luanda, traduzido em miríades de rajadas de balas tracejantes, à míngua de fogo de artifício, enquanto um pouco mais a norte, junto à foz do rio Bengo, na região de Quifangondo, a escuridão era rasgada por autênticas "mangueiradas" de fogo trocadas entre a organização defensiva do MPLA apoiada por cubanos e a coluna da FNLA, integrando mercenários e soldados zairenses, que procurava, sem sucesso, chegar à capital angolana no dia da independência.

Fonte: Mémorias de Angola ( http://pissarro.home.sapo.pt/ )

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Commentaires (12)

1. aderito (site web) 31/10/2012

e uma hestoria muito triste mas gostei tanto micomoveu tanto i espero muito qui angola moda para melhor etodo.

2. Epifanio bernado (site web) 09/06/2012

gostei muito da historia, reialmente é interensante porque retrata da nossa historia de uma forma resumida. eu sou Bernado o Angolano de rais.

3. carmine roberto (site web) 06/03/2012

adoro a historia de angola até porq sou angolana! e me importo com o meu pais!!

4. laura 12/02/2012

adorooo a historia da angola e quem disse q nao é um pais importante?
foi o maior fornecedor de escravos para o brasil na época colonial e ajudou muito para o enriquecimento da no nossa cultura e miscigenação......

5. 6yryeaq 29/11/2011

eu quero um resumeso só

6. mmmmmmm 12/11/2011

que lixo

7. joão 10/11/2011

quero

8. Carlos Alexandre 09/11/2011

Resume mais isso aaae ! tah demais powww Angola nao é tao importante assim naoooo !!

9. Lucia Siqueira 10/10/2011

Me interesso pela história de Angola e gostaria de receber informações e notícias. Grata; Lucia

10. cbsdubdshu 08/11/2010

toto não me xateiem pa sacanas

11. eurico bongo canganjo (site web) 16/09/2010

olá reginho como estas?eu sou o eurico [center][/center]

12. Aires Cossa (site web) 07/06/2008

gostei muito da historia. tenho muito interesse em querer saber mais a cerca da historia da angola.
Ahh eu sou mocambicano

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