Castro explica porque Angola perdeu a batalha contra a SADF

 

Castro explica porque Angola perdeu a batalha contra a SADF


Fidel CastroDe maneira airosa, Pretoria concordou retirar-se de Angola e da Namíbia com "o rabo entre as pernas", uma força exausta. Ou seja as sanções e Fidel Castro ganharam o dia. Esta não é a análise que emerge da própria versão de Castro dos eventos no seu discurso ao Conselho de Estado cubano em 9 de Julho, quando este se reuniu para confirmar a sentença de morte imposta ao general Arnaldo Ochoa Sanchez, chefe da missão militar cubana em Angola de Novembro 1987 a Janeiro deste ano.

Em vez disso, torna-se claro que em finais de 1987 Castro tinha concluído que o regime do MPLA fora um irremediável e económico caso perdido, batido no terreno e atrasado em quatro anos no pagamento dos insignificantes $20m anuais que os cubanos exigiram levar pelos seus serviços. O SA e Unita tinham eficazmente ganho. Para Fidel, o único curso aceitável seria encenar uma exposição unilateral da coragem militar cubana e ir para casa.

Castro estava tão decidido que nada deveria envolver o seu exército além do que fosse realmente necessário, que ele virtualmente abandonou todas as suas outras obrigações para terminar a guerra, a partir de Havana. Para assegurar que o MPLA não o atraiçoaria pelas costas, procurou e obteve que Cuba tivesse um lugar à mesa de negociações. E finalmente, em Junho passado, caso SA tentasse contrariar a sua saída, desafiando-o no terreno, ele ordenou que Oshakati fosse bombardeado e que a hidroeléctrica de Ruacana fosse destruída.

O principal objectivo do discurso de 9 de Julho era denegrir o papel que Ochoa desempenhou durante o derradeiro ano quente da guerra retratando-o como preguiçoso, incompetente, insubordinado e venal. Para que isso fosse aceite Castro evidentemente sentiu necessidade de relatar detalhadamente a defesa de Cuito Canavale e a subsequente ofensiva cubana em direcção à fronteira da Namíbia, citando, inclusive, os telegramas que enviou a Ochoa e ao seu comandante general Leopoldo Cintra Frias.

O principal objectivo do discurso de 9 de Julho era denegrir o papel que Ochoa desempenhou durante o derradeiro ano quente da guerra retratando-o como preguiçoso, incompetente, insubordinado e venal. Para que isso fosse aceite Castro evidentemente sentiu necessidade de relatar detalhadamentea defesa de Cuito Canavale e a subsequente ofensiva cubana em direcção à fronteira da Namíbia, citando, inclusive, os telegramas que enviou a Ochoa e ao seu comandante general Leopoldo Cintra Frias.

Este é o retrato pintado por Castro. Quando o general Ochoa chegou a Luanda no início de Novembro de 1987, o exército angolano e seus conselheiros soviéticos estavam em retirada precipitada depois da sua derrota em Mavinga. Como Castro afirmou "a situação piorou sensivelmente devido à crescente investida sul-africana e ao perigo de que a concentração de tropas angolanas em Cuito, Cuanavale fosse aniquilada."

Em 15 de Novembro, Cuba desembarcou os primeiros de 15.000 reforços, incluindo, "os nossos melhores pilotos."

Castro acrescentou: "Todos nos pediram que fizéssemos alguma coisa, e com velado desprezo para os seus aliados: "Nós mesmos entendemos que embora não sendo responsáveis pelos erros que levaram a esta situação, não poderíamos deixar que ocorresse uma catástrofe politico/militar.

Entretanto, havia pânico e mútuas acusações na Aliança Angolo-Cubano-Soviética no centro de operações em Luanda. "Muitos problemas tiveram que ser resolvidos."

A meio de Dezembro, Havana foi informada que o comando conjunto tinha chegado a acordo, supostamente, com a bênção de Ochoa, mas também na sua ausência, com o que pareceu ser uma retirada geral de Cuito Cuanavale e de Menongue - a cidade a seguir na estrada para Huambo - a norte da linha de Benguela.

Em 2 de Janeiro de 1988, Ochoa informou Havana que "os sul-africanos tinham recuado, que não havia mais uma situação da crise em Cuito e que certos movimentos da tropa poderiam ser feitos."

Castro não estava interessado em reagrupar-se para lutar nem mais um dia e terminantemente rejeitou isto, assinalando a 12 de Janeiro "enquanto as intenções de SA não forem totalmente compreendidas" não deve haver movimento de tropas para norte.

A 13 de Janeiro a SADF e a Unita atacaram as três brigadas angolanas que mantinham uma linha defensiva a leste de Cuito Cuanavale e separadas da cidade pelo rio de Cuito.

Os cubanos - que nesse nessa ocasião "não tinham um único homem em Cuito" prontamente enviaram "um grupo táctico com um batalhão de tanques, artilharia e outras armas" para a frente de Menongue.

Castro tinha decidido que os Angolanos aguentassem em Cuito. Por sua própria decisão, disse ao MPLA que Cuba estava no comando.

Diariamente Castro estimulou os seus generais espalhadas por15km, a 18km a leste do rio Cuito - de modo a que pudessem ser cobertas pela artilharia posicionada a oeste.

Os Angolanos eram demasiadamente lentos em cumprir as ordens. Ochoa foi chamado a Havana e informado com veemência "para superar qualquer resistência dos nossos aliados angolanos em reajustar as linhas da frente." Sem sucesso.

Em 14 de Fevereiro, os sul-africanos fizeram exactamente como Castro temera penetrando através dos 5 km de distância entre as 21ª e 59ª brigadas e circundando a última." Surgiu então uma situação muito difícil. Poderiam ter ido até à única ponte para voltar a Cuito e ter interceptado três brigadas completas "- mais de 3.500 soldados angolanos.

Os cubanos contra atacaram com blindados, perdendo sete tanques e 14 mortos, de acordo com Castro. Número excessivo na sua opinião, apenas mitigado pelo facto de que "o inimigo teve que usar mais de 100 veículos." Isso deu às brigadas angolanas tempo para recuar em direcção ao rio. Aí eles foram efectivamente apanhados depois de os sul-africanos terem destruído a ponte com "avião sem piloto"

Nos dias que seguiram, Castro tornou-se mais animado, procurando saber quantos tanques tinham ficado em cada lado do rio e porque é que os Angolanos continuaram impossibilitados em consolidar as suas linhas.

Em 21 de Fevereiro, ele contactou Ochoa em Luanda: "nós perdemos muitos dias e não compreendemos como é que as nossas instruções, ou simplesmente nossos pontos da vista chegam ao conhecimento da nossa gente em Cuito. Não sabemos quem é a pessoa responsável por receber e executar nossas instruções…há algo errado na linha de comunicações para passar as nossas ordens.

"Os comandantes da área não estão cientes das consequências políticas, militares e morais que uma desastrosa confrontação com as forças do leste do rio poderia causar. Estas forças não teriam mesmo navios para fazer algo comparável ao que os Ingleses fizeram com sua frota em Dunkirk."

Com a chegada do general Cintra Frias, os defensores por fim tomaram conta da situação entrincheirando-se ao longo do rio, protegidos por campos de minas na frente e artilharia e cobertura anti-aérea por detrás, a oeste da ponte. Os sul-africanos lançaram diversos assaltos mal sucedidos, mas depois posicionam-se atrás, para bombardear a cidade à distância.

Se bem que os sul-africanos não tivessem obtido a vitória estratégica que podia ter sido possível eles isolaram os angolanos antes que estes reagrupassem e efectivamente submeteram as FAPLA. Os Angolanos não foram mais um factor importante na guerra. Por outra lado, os cubanos tinham fixado a sua posição para o movimento seguinte.

Se bem que os sul-africanos não tivessem obtido a vitória estratégica que podia ter sido possível eles isolaram os angolanos antes que estes reagrupassem e efectivamente submeteram as FAPLA. Os Angolanos não foram mais um factor importante na guerra. Por outra lado, os cubanos tinham fixado sua posição para o movimento seguinte.

Era a ocasião para o grande número de Castro - o gesto que conservaria a honra cubana livre da incompetência angolana, e a razão por que Castro tinha sido tão categórico de que Cuito não deveria cair.

Era a ocasião para o grande número de Castro - o gesto que conservaria a honra cubana livre da incompetência angolana, e a razão por que Castro tinha sido tão categórico de que Cuito não deveria cair.

Em 10 de Março, sob comando dos generais Cintra Frias e Miguel Lorente Leon, uma força principal cubana recentemente reforçada foi requisitada para o sul, para a fronteira de Namíbia, a partir de Lubango."Tinha começado a mais importante de todas as operações estratégicas".


Barragem de Calueque

No início de Junho os cubanos, não tendo encontrando nenhuma resistência, tinham construído uma base aérea fortificada em Cahama, e trabalhavam numa segunda em Xangongo. As unidades avançadas foram pelo menos tão longe a sul quanto Chipa, a cerca de 50km a norte de Calueque. Castro acreditou agora - três semanas da segunda volta de negociações tripartidas no Cairo - "que o processo da paz se tinha tornado irreversível."

A sua preocupação maior era que os sul-africanos estragassem os seus planos, por continuarem a batalhar. Telegrafou a Ochoa em 7 de Junho: "notícia de um possível ataque aéreo de surpresa sul-africano…não deveria ser subestimado…esteja pronto para contra atacar com tantos aviões quanto possível para destruir completamente os reservatórios de água de Ruacaná e transformadores… deveriam também estar preparados para atacar Oshakati e as bases aéreas próximas…o grupo Cahama e tudo que estiver disponível terão de ser usadas para isto… não esperem ordens para atacar se houver um forte ataque inimigo contra as nossas tropas."

A sua preocupação maior era que os sul-africanos estragassem os seus planos, por continuarem a batalhar. Telegrafou a Ochoa em 7 de Junho: "notícia de um possível ataque aéreo de surpresa sul-africano…não deveria ser subestimado…esteja pronto para contra atacar com tantos aviões quanto possível para destruir completamente os reservatórios de água de Ruacaná e transformadores… deveriam também estar preparados para atacar Oshakati e as bases aéreas próximas…o grupo Cahama e tudo que estiver disponível terão de ser usadas para isto… não esperem ordens para atacar se houver um forte ataque inimigo contra as nossas tropas."

Estas instruções foram aparentemente dadas sem consultar previamente o governo angolano, que tinha alcançado um entendimento tácito com Pretoria de que o complexo de Ruacaná não devia ser tocado.

Castro emitiu meramente um telex ao presidente Eduardo dos Santos informando-o que tinha ordenado aos seus generais "para colocar todas as forças em um estado do alerta máximo, para tomar todas as medidas de segurança e para ter os nossos aviões prontos para descolar e repelir o ataque."

Se foi menos honesto com Dos Santos, Castro foi igualmente decidido em que os demais participantes deviam estar cientes dos seus planos." Notificámos os soviéticos…nós advertíamos todos, do perigo da possibilidade, que nós poderíamos ter que lançar um forte ataque ao norte de Namíbia".

O ataque aéreo sul-africano sul não se realizou. Em vez disso em 26 de Julho a artilharia de longo alcance dos sul-africanos bombardeou unidades cubanas perto de Chipa. Castro decidiu que os bombardeamentos não eram suficientes para merecer um ataque a Ruacana.

Ele telegrafou a Ochoa: "a primeira etapa deve ser um forte ataque aéreo contra o acampamento, instalações militares e o pessoal sul-africano em Calueque e seus arredores…se a artilharia do inimigo puder ser encontrada, ataque-a fortemente."

Onze sul-africanos morreram no ataque, a barragem foi atingida e Pretoria "levantou um grande barulho." Mas os sul-africanos também se contiveram militarmente" – tal como Castro desejaria.

Ele telegrafou outra vez: " Nós demos-lhes a nossa resposta inicial. Agora é com eles decidir o que fazer e se devem continuar a escalada."Cinco semanas depois todos participantes aceitaram os acordos de New York.

Este era o clímax da guerra. Desde os acontecimentos de Calueque a iniciativa pertencia aos negociadores. Certamente haveria dificuldades.

No dia 10 de Outubro Castro informou Ochoa que haviam chegado a um impasse e que deveria haver uma outra demonstração de força.

Mas isto parecia menos para assustar os sul-africanos do que para estimular os Angolanos, que esperavam o resultado da eleição presidencial dos E. U., antes de aceitarem finalmente o acordo tripartido.

As barragens de Ruacaná e de Calueque seriam mais uma vez os alvos, mas, como Castro disse aos seus comandantes: "eu não acho que os sul-africanos queiram recomeçar as hostilidades."

Esta não é a história de uma derrota sul-africana. É a história de uma derrota angolana e, como com considerável ousadia e " panache ", os cubanos se desenvencilharam dela.

Quando visitei o Museu da Revolução em Havana no último Março, estranhei que a exposição comemorativa "da gloriosa vitória" em Cuito Cuanavale tinha sido escondida do público num corredor lateral.

Agora parece haver uma explicação. Fidel Castro tinha ainda que decidir a quem deveria dar o crédito. O general a quem deveria ter sido atribuída a glória da vitória, fora fuzilado na última quinta feira ao alvorecer.

O General Arnaldo Ochoa Sanchez, comandante da força expedicionária cubana em Angola entre Novembro 1987 e Janeiro deste ano – o homem, que por outras palavras, teria sido enviado para repor a ordem, depois da Unita e o SADF terem batido o MPLA e seus conselheiros soviéticos em Mavinga - foi executado acusado, sobretudo, de tentar passar cocaína para os E. U. em conluio com o célebre cartel de Medellin da Colômbia.

Pelo menos foi isto que pediram ao povo cubano e ao mundo que acreditassem. As transcrições dos excertos do julgamento de Ochoa que eram transmitidos pela televisão cubana, e outra evidência, sugerem que a verdade é totalmente diferente. O general pode, possivelmente ter sido envolvido no comércio de droga, mas aquela não foi a razão para a sua apreensão e eliminação. 

Ochoa, de acordo com aqueles que o conheceram (incluindo diplomatas envolvidos no processo do acordo de Angola/Namíbia), era um homem de admirável contenção e muita inteligência e carisma.

Sabia que a sua missão era presidir sobre o último hurra de Cuba em Angola e que a defesa "heróica" de Cuito era, por isso, uma vangloriosa fraude, projectada para cobrir uma retirada que já tinha sido decidida. As 15.000 novas tropas que seguiram Ochoa vieram salvar a face de Cuba, não o MPLA.

Sabia que a sua missão era presidir sobre o último hurra de Cuba em Angola e que a defesa "heróica" de Cuito era, por isso, uma vangloriosa fraude, projectada para cobrir uma retirada que já tinha sido decidida. As 15.000 novas tropas que seguiram Ochoa vieram salvar a face de Cuba, não o MPLA.

O ministro da defesa Raul Castro irmão de Fidel, citou o general como dizendo:"eu fui enviado para uma guerra perdida de modo que eu fosse responsabilizado pela derrota." Aquela foi na verdade a sua opinião.

Fonte: Memorias de Angola ( http://pissarro.home.sapo.pt/memorias0.htm )

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