Desde Cuba por Raúl Soroa

 


Agostinho Neto e Fidel Castro (foto Net) 

¡Ay, Carlota!

Desde Cuba por Raúl Soroa

Faz trinta anos o nosso país assumia uma das mais controversas aventuras da sua breve história. Um grupo de cubanos chegava à República de Angola armados, corajosos, convencidos de que estavam escrevendo uma página "memorável", desejosos de cobrir-se de glória. Muitos desses combatentes, soldados e oficiais deram as suas vidas nessa primeira batalha às portas de Luanda, a capital da antiga colónia portuguesa com o nome de Africa Ocidental Portuguesa antes da sua descolonização.

Dez anos estaríamos nessa terra africana. As quotas de morte, feridas de todo o tipo, físicas e mentais, os traumas que a guerra deixou são incontáveis.

Nesses anos, tudo o relacionado com Angola mantinha-se no mais absoluto segredo. De um dia para outro um vizinho, um tio, um pai de um amigo desaparecia misteriosamente. Ia fazer "manobras militares em Camagüey" ou partia para "estudar para a URSS". Na realidade, muitas vezes nem o próprio implicado na aventura conhecia o seu destino. Mandavam-no num velho Britania e amanhecia em terras de África..

A primeira decepção sofreram-na os nossos jovens soldados quando descobriam o ódio nos rostos de quem vinham a "defender", quando essas pessoas que eles pensavam que os receberiam com flores e sorrisos se imolavam quando as caravanas passavam ou quando miúdos pequenos deitavam granadas dentro dos blindados. Nos Kimbos ninguém vinha a agradecer-lhe o seu gesto "internacionalista" e muitos dos que lhes sorriam de dia lhes disparavam ao por do sol. Pouco a pouco deixamos de chamar aos angolanos camaradas e começámos a chamar-lhes nativos. Depressa descobrimos que não éramos bem recebidos, que éramos estranhos no meio de uma guerra terrível onde não se respeitava nada nem a ninguém.

Sobre o valor dos nossos soldados escreveu-se muito e não sem razão. Se algo somos os cubanos são valentes. Se não (salvo as diferenças) somente há que olhar à nossa volta e ver dezenas de activistas, jornalistas, homens e mulheres que se enfrentam desarmados, sem apoio internacional, incompreendidos até por aqueles dizem ser seus aliados, da mais terrível ditadura que a América conheceu.

Provas de arrojo sem limites se deram em Norton de Matos, Sumbe, Canganba. O semanário Newsweek comenta por esses dias que os "cubanos eram a maior surpresa de todas. Os homens que Castro enviou para Angola não pareciam guerrilheiros provenientes de uma república das bananas mas um exército muito disciplinado e treinado no uso eficaz dos armamentos mais sofisticados do arsenal soviético". O mortos...bom, o governo não reconhece nem metade das possíveis baixas mortais. Fontes oficiais mencionam a cifra de sete ou oito mil. Outros falam de dez mil durante a aventura angolana. Ao fim e ao cabo não importa se foi um só.

Aldeias arrasadas pelos tanques e bombardeamento da artilharia, milhões de mortes civis, um país desbastado pelo conflito foi o que deixámos nessa terra. Trouxemos de lá, como bem disse o máximo déspota cubano, só os nossos mortos, a maioria jovens soldados do Serviço Militar, na flor da vida. Aos que regressaram deram-lhes um breve discurso e uma medalha.

Os veteranos tinham múltiplas dificuldades para readaptar-se à vida civil. Ninguém se importou com os "orgulhosos combatentes internacionalistas". Não era possível que os "nossos heróicos combatentes", que vinham de cumprir uma "honrosa missão em África", sofressem traumas de guerra. Isso era coisa dos inimigos imperialistas que lutavam em guerras injustas. Outra vez a conhecida a política da avestruz. Muitos veteranos apresentavam graves problemas de adaptação. Regressavam mudados para sempre pelo horror e sobre tudo pela imensa dúvida. Que fomos fazer lá?

Um amigo que combateu nas Tropas de desembarque e Assalto regressou alcoólico e era presa de raptos de violência que lhe causaram problemas múltiplos. Jamais encontrou a paz necessária para constituir uma família. Outro vizinho que serviu numa unidade de destino especial tinha pesadelos constantes em que lhe apareciam as pessoas que teve que executar com um tiro na nuca e outros que presenciou como eram atirados para fora do helicóptero para a selva. Eu escutava os seus gritos de terror a meio da noite e muitas vezes fui testemunha das suas rodadas intermináveis de run, onde tentava afogar as suas recordações.

A um ex-companheiro do Serviço Militar, voluntário sobrevivente de Cangamba, mutilado de guerra que vendia croquetes num desconchavado carrito frente ao Teatro Nacional em La Habana, a menor explosão de um escape de automóvel lançava-o ao solo entre a troça dos presentes, que não entendiam o que se passava com esse negro coxo que tremia no chão como um possesso.

Conheço dois casos de suicídio, um deles um soldado ex-prisioneiro da UNITA que presenciou como lhe cortavam as mãos aos seus companheiros de armas feridos e capturados como ele e os introduziam no abdómen aberto a navalha. Nunca pode esquecer essa imagem da sua mente.

Fomos testemunha do pranto inconsolável das viúvas, dos órfãos. Há muitas anedotas mais e sempre aflora a mesma pergunta: Para quê? Por quê?

Fomos espectadores também do horror moral desse engenho diabólico das cartas amarelas. Só um déspota sádico e seus sequazes lhe podia ocorrer enviar cartas em envelopes que eram facilmente identificáveis na tropa aos soldados da frente na guerra, onde se lhes comunicava que eram enganados pelas suas esposas e noivas em Cuba. A esses homens se lhes exigia romper relações com as suas companheiras em nome de um falso moral socialista que os chefes cumpriam em calções. Nada ignora já que enquanto os nossos jovens morriam, muitos generais e altos oficiais iam a safaris, comercializavam marfim e diamantes e mantinham verdadeiros haréns, onde em algumas ocasiões ia parar alguma bela esposa de um dos soldados ou oficiais de graduação inferior, enviada a Luanda a cumprir a "honrosa missão" de entreter altos chefes.

A grande ironia e ao que parece fomos a suster um ditador totalitário, um sistema terrível que veio abaixo com a saída do último dos nossos soldados. Os antigos inimigos deram as mãos. O mundo tinha mudado para melhor e oxalá para sempre.

Em Agosto de 1988, nas negociações realizadas por Angola, Africa do Sul e Cuba acordou-se um plano de paz que incluía a independência para a Namíbia. Em Maio de 1991 abandonaram Angola as últimas tropas cubanas e o governo central assinou um cessar fogo acordado com a UNITA que seria supervisionado por observadores da Organização das Nações Unidas (ONU).

À pergunta do porquê e para que fomos para Angola trataremos de responder nesta série de trabalhos com esperança de nos acercarmos a esse objectivo.

Na década de sessenta a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) liderada por Holden Roberto, mantinha uma atitude beligerante. Era um do mais antigos movimentos anti-colonialistas da possessões de Portugal em África. Forte na ordem militar, de assinalada tendência anticomunista, integravam-no as forças melhor armadas e treinadas. Era apoiado pela China e contava o beneplácito dos Estados Unidos.

Jonas Savimbi, chefe da UNITA, era um dos líderes angolanos mais importante na luta contra o colonialismo Português. Contava com o apoio do regímen chinês e mantinha estreitos vínculos com o argelino Ben Bela.

O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de tendência francamente comunista, pró-soviético, apoiado pela URSS, o Partido Comunista Português, Cuba e, o Congo Brazzavile, era liderado por Agostinho Neto, que havia estado relacionado desde princípios dos anos 60 a Che Guevara. Em 1966 Neto viajou a La Habana, desde então, os vínculos do dirigente comunista africano e Fidel Castro seriam permanentes. Os primeiros combatentes do MPLA foram treinados na Argélia por instrutores cubanos. Do ponto de vista militar, era mais débil, pelo que a assistência dos cubanos, comunistas portugueses e soviéticos seria decisiva no seu fortalecimento bélico.

No meio desta situação, dá-se em Setembro de 1973 a aliança do Partido Comunista Português e os militares de esquerda agrupados no Movimento das Forças Armadas, que pretendiam fazer um golpe de estado que instaurasse um regime comunista em Portugal. Álvaro Cunhal, o Lenine português, secretário do PC, começa a mover-se entre Cuba e URSS para preparar o golpe e abater Marcelo Caetano. A acção o surpreende em La Habana.

Cunhal procura de imediato fortalecer nas colónias os movimentos de orientação marxista e começa a exercer uma pressão sobre a Junta Militar encabeçada pelo General António Sebastião Ribeiro de Spínola, com Vasco Gonçalves como Primeiro Ministro, para negociar só com eles. O Partido Socialista, encabeçado por Soares, procura uma espécie de associação lusitana e propõe a neutralidade entre MPLA, UNITA e FNLA.

Os militares vermelhos portugueses no poder facilitam a Cuba, que se envolva nos processos de descolonização de Moçambique e Guiné Portuguesa, toda a informação logística e de inteligência necessária para a sua participação na África portuguesa, o que lhe seria de grande utilidade nas acções militares posteriores em Angola. As visitas entre La Habana e Lisboa se sucedem uma atrás da outra. Intercâmbios de estratégia, planos em comum, que têm com objectivo levar ao poder os partidos pró marxistas e a facilitar a Cuba toda a informação necessária para intervir militarmente no processo caso fosse preciso. Tropas especiais cubanas encontravam-se em Moçambique e na Guiné Portuguesa.

Desde finais de 1974 os soviéticos aumentaram a ajuda militar ao MPLA e com a assistência dos militares comunistas portugueses Agostinho Neto consegue estruturar uma organização militar capaz de equiparar-se à UNITA e à FNLA. Em 1975 o MPLA apresenta-se a disputar o controle de Luanda aos movimentos rivais. Em 4 de Fevereiro Neto apresenta-se na capital angolana escoltado por militares cubanos e soviéticos. Entre Maio e Junho Castro começa a concentrar unidades militares em Cabinda e em Julho acelera-se a entrada de combatentes cubanos em Angola com o fim de travar a batalha por Luanda.

Holden Roberto começa a concentrar os seus batalhões na povoação nortenha de Ambriz onde tinha instalado o seu governo provisório. O seu sogro Mobutu presta-lhe toda a ajuda necessária desde o Zaire. Em Cabinda, com o apoio das companhia petrolíferas francesas cria-se a FLEC grupo com objectivos separatistas. O inglês John Best e o "mayor" norte americano James E. Leonard, assim como as organizações Security Advisory Service y Mercenary Forces Group começam a recrutar mercenários para enfrentar o MPLA e UNITA que se apresta para dar batalha. Os chineses aumentam a sua colaboração com Savimbi, facilitando-lhe assessores, armas ligeiras de combate minas e explosivos.

No mês de Agosto chega a Luanda uma representação dos militares comunistas portugueses encabeçada pelo almirante Rosa Coutinho, conhecido por almirante vermelho. Dias depois, Portugal designa o general Leonel Cardoso como Alto Comissário para Angola, com a missão de entregar o poder ao MPLA.. Desde meados de Julho partem de La Habana os primeiros barcos carregados com unidades militares sob o comando do General Raul Dias Arguelles.

Em 15 de Agosto de 1975 aterram em Luanda Jorge Risquet, encarregado cubano para os assuntos africanos e os generais Diaz Arguelles e Ramón Espinosa e se reúnem com o Adén para a chegada de provimentos soviéticos.

As tropas sul-africanas cruzaram ao sul de Angola desde Namibia em 15 de Agosto para proteger os diques do complexo hidráulico do Ruacaná-Calueque e desde 23 de Outubro avançam com direcção a Luanda à razão de 70 km por dia. Esta forte coluna vai cercando os campos de treino dos cubanos e se dão as primeiras baixas.

Castro se vê numa difícil decisão: deixar os seus homens nas bases de treino à sua sorte ou enviar poderosos efectivos capazes de deter o avanço dos sul-africanos. Castro optou pela segunda variante.

A presença cubana em Angola é anterior à entrada das tropas sul-africanas. É causa e não consequência dessa entrada. O avanço da coluna blindada da África do Sul precipita os acontecimentos e exige ao regime de La Habana subir a parada em Angola sob o perigo de serem exterminados os seus assessores militares no sul. Um complot urdido pelos comunistas portugueses a URSS e Castro está a ponto de ir abaixo. O governo de Gonçalves cai em Lisboa e a África do Sul avança sem encontrar apenas resistência, o que é necessário uma grande deslocação de tropas cubanas e de logística por parte dos russos, para impedir a queda do MPLA.

O pretexto da invasão sul-africana vem, além disso, como anel ao dedo de Castro para legitimar a escalada militar usando a tese do internacionalismo proletário.

Em 1975, baterias antiaéreas cubanas estiveram a ponto de derrubar no Bié o avião em que viajava Savimbi. A África do Sul, informada da decisão cubana de enviar mais batalhões para Angola, envia uma forte coluna que avançava rapidamente mais além das fronteiras da Namíbia.

A queda de Gonçalves em Portugal põe em sério perigo o apoio que Neto vinha recebendo do comando português em Angola. Isso, mais a entrada da coluna sul-africana no Cunene que avança sem encontrar séria oposição, coloca Castro na decisão de retirar-se a tempo ou envolver-se ainda mais no conflito que se torna cada vez mais perigoso numa terra situada a milhares de quilómetros de La Habana. Opta por uma notável deslocação de forças e meios e a URSS aprova o envio de mais logística.

No início de Outubro nos velhos aviões Britânia começa o transporte de tropas. Em 6 de Outubro, unidades da Divisão 50, agrupamento da elite cubana, mantêm um sangrento encontro em Norton de Matos com os sul-africanos. No mes de Novembro, começam a chegar as tropas especiais do Ministério do Interior, com o objectivo de deter a coluna sul-africana às portas de Luanda até a chegada das tropas de Cuba.

Em 3 e em 12 de Novembro tem lugar combates de envergadura em Benguela e Novo Redondo entre sul-africanos e tropas cubanas comandadas por Raul Dias Argüelles. A efectividade da defesa cubana demonstra aos sul-africanos que tem ante si uma tropa experiente e que o desenvolvimento das acções não será fácil para eles.

Durante a primeira semana de Novembro várias colunas provenientes de Cabinda (no norte) e do Lobito (no sul) avançam para Luanda. O comando cubano prepara a defesa, colocando-se em posições adequadas a artilharia reactiva. Castro envia de La Habana mais unidades de Tropas Especiais do MININT e especialista em artilharia pesada.

O exército cubano está composto por uma oficialidade formada em boa medida nas melhores academias militares soviéticas. Muitos desses oficiais tem uma ampla experiência pela sua participação em acções militares na África e na América Latina. A tropa foi treinada com severidade e está fortemente doutrinada. A ditadura castrista empregou enormes recursos no seu treinamento e manutenção. O seu arsenal está composto pelo mais recente material da técnica militar soviética. As Tropas Especiais estão integradas por militares escolhidos pela sus destreza militar mas sobretudo pelo fanatismo. São a elite, a guarda pretoriana do ditador.

A Operação Carlota é uma manobra meticulosamente cronometrada com os comunistas portugueses. O Partido Comunista Português prepara um golpe de estado para o 25 de Novembro. Querem repetir a sorte dos bolcheviques russos em 1917. O Lenine português prepara-se e Castro se apressa a apoiá-lo.

Uma unidade do exército cubano auxiliada por tanques, abre fogo sobre as tropas de Holden Roberto. A surpresa é total, os soldados de Holden Roberto em ordem de marcha rumam a Luanda e se encontram com um intenso e certeiro fogo. Uma chuva de projecteis incendiários dizima a sua vanguarda e os tanques destroçam a tropa dispersada pelo pânico. A massa sem ordem retira-se deixando sobre o campo milhares de cadáveres. A retirada é uma odisseia, sobre os homens fugindo disparam os foguetes reactivos e os Mig dizimam a massa aterrorizada. E uma verdadeira caçada: os aviões baixam em picado e disparam sobre os fugitivos ao longo de 20 quilómetros. Findou a carnificina. Os cadáveres estão destroçados, praticamente partidos em dois pelos disparos dos tanques, queimados, fragmentados pelos foguetes de 122mm.

As tropas mercenárias que avançavam desde o norte apoiando Holden Roberto chegavam em festivo. O chefe da coluna conduzia as operações sobre um Honda desportivo acompanhado de uma actriz ruiva. Não tiveram a cautela de enviar patrulhas de reconhecimento. Os foguetes cubanos destroçou-os. O automóvel voou em pedaços.

Desde Setembro se encontram em Angola os generais cubanos Leopoldo Cintra Frias, Del Pino, Colomé Ibarra, Rogélio Acevedo, Lopes Cubas e Românico Sotomayor. Em La Habana, o general vietnamita Vo Nguyen Giap e vários altos oficiais soviéticos, acompanhados do membro do Bureau Político do PCUS Mijail Suslov, assessoram o Estado Maior Cubano e analisam a possível reacção norte americana à escalada da presença militar cubana em África.

Ao longo de Dezembro e Janeiro aumenta-se as operações. As tropas cubanas crescem de 12 para 22 mil e em Março alcançam 37 mil soldados. A UNITA sofre duros ataques e passa à luta irregular na selva. As unidades cubanas progridem no seu avanço para o sul. A FLEC em Cabinda morde o pó da derrota.

Enquanto em Cuba, as mães, as viúvas choram os seus mortos e os órfãos seus pais caídos. Às tropas selectas seguem-lhe as unidades de reserva e os inexperientes soldados do Serviço Militar Obrigatório. Pais de família e jovens recém saídos do ensino médio partem a dar a sua vida para satisfazer as ânsias messiânicas de um líder e os sonhos hegemónicos de uma super potência.

A morte estava em todas as partes, por detrás do sorriso de um menino que atira uma granada dentro de um blindado no fim de uma curva da estrada, em qualquer sombra, em qualquer árvore, mato ou pedra, nas aldeias, dentro das cubatas de palha e barro, no sorriso da negra de que olha sorrateira, na picada de um mosquito, nas serpentes, no clima, na inépcia do oficial da reserva que desconhece o abc da táctica militar, na ordem de um déspota que ignora o que significa a vida de um soldado e se não sabe não lhe importa.

Os cubanos acreditavam estar em África defendendo "o sagrado dever do internacionalismo". Pelo menos muitos deles, alguns foram pela aventura, outros para ter méritos ou por medo de ter problemas se diziam que não estavam dispostos a cumprir o "sagrado dever". O que poucos sabiam era que serviam os interesses de uma super potência, que eram parte do jogo universal da Guerra Fria e que estavam no lugar errado.

Os comunistas portugueses preparavam o seu Outubro Vermelho. Álvaro Cunhal era o principal aliado de Moscovo na Europa. O triunfo das organizações comunistas nas antigas colónias significava um importante passo para o alcance deste objectivos. Cuba havia-se envolvido desde o início nesses planos. Tropas cubanas encontravam-se na Guiné Portuguesa e Moçambique. A assunção dos movimentos marxistas nas colónias facilitaria a tomada do poder em Lisboa.

Para surpresa dos convidados estrangeiros que assistem à independência da Guiné Portuguesa, soldados cubanos marcham pelas ruas da Praia, capital do novo estado e ocupam os lugares que abandonam as tropas portuguesas.

Em Moçambique, membros da inteligência cubana dirigida pelo cipriota Vassos Lyssarides, homem de confiança de Osmani Cienfuegos, unem acções com o membro da inteligência alemã Joaquim Kindzel. É nomeado governante Soares de Melo, simpatizante da marxista Frente da Libertação de Moçambique (FRELIMO) e em conversações secretas em Lusaka acordam um trespasse do poder para a FRELIMO e marginam o resto das organizações.

Os intercâmbios entre militares "vermelhos", o regime de La Habana e a URSS são constantes.

A intervenção cubana em Angola no início de 1975 não foi, portanto, uma reacção à invasão sul-africana, segundo declarações do próprio presidente da Assembleia Nacional de Cuba e principal corifeu de Castro. Ele enviou uma massivo de tropas cubanas para Angola, começou na primavera desse ano em Massango, muito antes da entrada dos sul-africanos e formava parte de um plano estratégico maior onde estavam representados os interesses de Moscovo em primeiro lugar.

Os soviéticos facilitam todo o apoio logístico necessário, incluindo os aviões IL-62 para o transporte de tropas. A URSS lança uma grande ofensiva diplomática para obter o apoio dos estados africanos à sua aventura angolana, promete ajuda à direita e à esquerda, concede empréstimos e regalias de todo o tipo.

Segundo opinam os analistas, a URSS em 1975 foi capaz de transformar a seu favor um conflito militar terceiro mundista. Sem a logística, a informação da inteligência e o consentimento soviético, Castro nunca se tinha lançado nesta aventura.

Destacados generais soviéticos participaram na elaboração dos planos de campanha. Unidades de superfície da marinha soviética se dirigiram a Angola nos momentos mais cruciais.

Depois do desmantelamento militar britânico no Indico, a URSS começa a interessar-se em ocupar posições na zona. Com a descolonização de Moçambique e o golpe de estado de Didier Ratsiraka em Malgache os russos conseguiram flanquear as forças norte americanas na área.

Para o Kremlin era de sumo interesse o controle dos portos e vias de comunicação entre a África e a Índia assim como a zona petrolífera do Golfo Pérsico. O domínio de Moçambique e Angola permitia-lhe fazer pressão sobre a África do Sul. Este domínio habilitava além disso a presença de uma frota de guerra soviética no Atlântico do Sul com portos seguros em África.

Uma força beligerante cubano soviética apontada sobre a Namíbia e Pretória. Por essas razões combatiam e morriam cubanos em Angola, não por abstracções internacionalistas, mas em nome de um sonho imperial de um sistema em decadência, que anos mais tarde cairia pelo próprio peso da sua absurda existência.

Neto morreu em 1979 e a liderança foi assumida por José Eduardo dos Santos. Continuou a guerra contra as guerrilhas da UNITA que contavam com o apoio de incursões militares da África do Sul em território angolano, com a intenção de perseguir os insurrectos da Namíbia e ao mesmo tempo combater o governo do MPLA que lhes fornecia armas.

As tropas cubanas envolvem-se de maneira directa nos combates contra a guerrilha. Unidades especiais da "luta contra bandidos" treinadas pelo regime de La Habana combatem na chamada frente Sul contra a UNITA e em ocasiões dão-se grandes confrontos com os sul-africanos.

A UNITA leva a cabo uma guerra de desgaste contra os ocupantes cubanos. Emboscadas, minas, franco-atiradores, armadilhas, veneno, terminam com a vida de numerosos soldados e oficiais. A selva, os recantos dos caminhos, a obscuridade convertem-se em símbolos de morte. As caravanas são emboscadas uma e outra vez. Não há descanso e os guerrilheiros desaparecem como por arte mágica.

Angola é um sítio inseguro, perigoso para o ocupante estrangeiro e de pouco vale a retórica marxista. São inimigos, ocupantes indesejados. Já os soldados cubanos não chamam camaradas aos angolanos, agora são nativos. No sul é pior, ali Savimbi conta com o apoio da grande maioria e os seus guerreiros são ocultados, abastecidos e cuidados pela população. O Sul é a morte.

Depois de um grande período de certo equilíbrio assegurado pela presença cubana, nos anos 80 a actividade da UNITA aumenta e o exército da África do Sul penetra em Angola em várias ocasiões cada vez mais profundamente.

O alto comando soviético decide estabelecer uma defesa estática em volta da localidade de Cuito Canavale e impedir o avanço dos sul-africanos. La Habana discorda deste pensamento táctico e propõe atacar, passar à ofensiva, dar um golpe de graça ao apartheid. Com este fim concentra a maior quantidade de tropas na sua aventura africana (50 mil soldados) apoiados por unidades blindadas, artilharia reactiva e aviação. Construiu-se um aeroporto militar perto da frente para fazer mais efectivo o uso dos Mig.

A situação tornou-se verdadeiramente perigosa. A África do Sul possuía armas nucleares e podia utilizá-las no caso de se sentir ameaçada no seu território e a grande concentração militar cubana não indicava outra coisa. Apesar do conselho soviético, Castro continuou com os seus planos. A África do Sul ameaçou em usar as suas armas atómicas. O povo de Cuba desconhecia o perigo que corriam os seus soldados. Os combatentes desconheciam o perigo, Castro ocultou-o. Em caso de um golpe nuclear não dispunham de meios para defender-se e seria exterminados.

A história seguinte é bem conhecida. Afinal a África do Sul não se decidiu a utilizar as suas bombas atómicas e na batalha de Cuito Canavale o exército cubano, armado com o melhor e mais recente da técnica militar soviética, infligiu-lhes uma custosa derrota. "Os Migs partiram-nos o coração", escrevia num muro crivado pela metralha um soldado anónimo sul-africano.

As baixas de ambos os lados foram enormes, a superioridade aérea e de tanques inclinou a balança a favor dos cubanos. Nunca se souberam as cifras das baixas nesses duros dias de combate, mas as marcas no terreno, a destruição e os cadáveres indicavam que a batalha foi de grande violência.

Em Agosto de 1988, nas negociações realizadas por Angola, África do Sul e Cuba acordou-se um plano de paz que incluía a independência da Namíbia. Em Maio de 1991 abandonaram Angola as últimas tropas cubanas e o governo central assinou um cessar fogo acordado com a UNITA que seria supervisionado por observadores das Nações Unidas (ONU). Nas eleições feitas em Setembro de 1992 o MPLA conseguiu 129 dos 220 assentos do novo Parlamento e a UNITA obteve 70 enquanto dos Santos derrotou Savimbi na votação para a presidência. A UNITA rejeitou os resultados das eleições considerando-os uma completa fraude e recomeçou a sua campanha militar. Um novo plano de paz apoiado pela ONU, negociado em Lusaka (Zâmbia) fracassou no seu intento de resolver o conflito e por fim a uma das guerras civis com maior número de mortos no mundo.

Depois de um período de estancamento a 1 de Março de 1996 Dos Santos e Savimbi concordaram formar um governo de unidade assim como um único exército antes de Julho de 1996 ainda que tudo isso não se conseguiu até 8 de Abril de 1997, quando o Parlamento angolano aprovou um estatuto especial para Jonas Savimbi e três dias depois constituiu-se um novo governo de unidade e reconciliação nacional que aparentemente pôs fim a 19 anos de guerra civil.

Em Outubro de 1997 a guerrilha da UNITA cedeu ao governo a cidade de Cuango a este da província de Lunda Norte muito perto da fronteira com a República Democrática do Congo e o controle da vizinha mina de diamantes de Luzamba, uma das principais fontes de rendimento.

A desmobilização de tropas prevista para 1998 viu-se impedida pelos contínuos atrasos e incumprimentos por parte do MPLA. Assim, durante o mês de Julho deu-se um agravamento da situação em Angola, que meses mais tarde degenerou numa situação bélica com ataques às refinarias petrolíferas e às fábricas industriais mais importantes do país africano.

Em Dezembro de 1998 a UNITA intensificou a sua ofensiva e em Janeiro de 1999 os observadores da ONU viram-se obrigados a abandonar o país sem conseguir a paz ao mesmo tempo que o recrudescimento dos combates provocou a deslocação de centenas de milhar de angolanos e um autêntico desastre humanitário. No dia 27 desse mês Dos Santos considerou anulado o plano de paz acordado em 1994 e poucos dias depois assumiu todos os poderes do Estado para fazer frente à guerrilha, rearmada graças ao controle que exercia sobre as diversas zonas diamantíferas.

A situação angolana passou nos primeiros anos do século XXI por duas novas circunstâncias decisivas. Em Agosto de 2001 Dos Santos anunciou a sua intenção de não se candidatar a eleições que – dependendo do curso da guerra – teriam lugar em 2002 ou 2003. Por outra lado, em Fevereiro de 2002 Savimbi morreu num combate contra tropas do governo. Os acontecimentos precipitaram-se e em 30 de Março o general Geraldo Nunda, chefe das Forças Armadas e Abreu Muengo Ukwachitendo (Abreu Kamorteiro)., como cabeça visível da UNITA, acordaram um cessar fogo. Em 4 de Abril o governo e UNITA assinaram em Luanda um acordo histórico que, retomando o Protocolo de Paz de Lusaka (1994), punha fim às hostilidades e contemplava a convocação de eleições num prazo máximo de dois anos, assim como a integração dos membros da guerrilha no exército.

Enquanto se davam os combates, a verdadeira cara da tragédia angolana permaneceu oculta. Enquanto os oficiais cubanos se vangloriavam das suas vitórias, os seus generais iam para safaris, construíam mansões com a madeira preciosa da selva africana, comercializavam marfim e diamantes, os soldados cubanos morriam nas emboscadas feitas pela guerrilha, morriam vítimas de febre palúdica ou se infectavam com SIDA, regressavam a La Habana com uma medalha no peito, e outros jovens substituíam-nos no carrossel sem fim da morte e destruição.

Savimbi trocava armas por diamantes e se convertia em deus dos angolanos do sul. Homem que voa, peixe, demónio imortal. Para os angolanos que o seguiam para os territórios debaixo do seu domínio, era senhor de vida e morte. Dos Santos, o herdeiro de Neto, impunha os seus dotes de marioneta soviética e intentava transplantar a "bela experiência" do país do GULAG a África.

A pior parte a levava o povo angolano. 90% do país permanecia oculto da vista da comunidade internacional. Ali não chegava a ajuda humanitária nem a assistência médica civil. Ali acampavam por seus respeitos as hostes de um ou de outro bando. As pessoas morriam de fome nas ruas, os deslocados deambulavam de povoação em povoação, famintos e doentes, sem assistência alguma. Luanda, cidade construída pelos portugueses para albergar 250 mil pessoas, chegou a acumular mais de 6 milhões de deslocados. Os assaltos, os grupos armados, os assassinatos, converteram-se em casos quotidianos.

Ambos os grupos em conflito usaram desde sempre tácticas de terror saqueando as povoações, o assassinato dos habitantes, o incêndio das lavras e das casas. Muitos aldeãos foram obrigados a viver num estado de semi-escravidão carregando munições e armas para as tropas. Muitas mulheres foram convertidas em escravas sexuais. Se chegava a UNITA havia massacre. Se chegavam as FAPLA havia também. A única linguagem que se ouvia era a das armas e ambas as partes procuravam eliminar as fontes de abastecimento do inimigo, destruir as bases de apoio e exterminar os partidários do inimigo.

O governo não dedicava nenhum recurso à atenção da povoação civil. As emergências humanitárias eram ignoradas continuamente e os civis viam-se na linha de fogo dos dois lados.

Uma quarta parte das crianças, segundo a organização dos Médicos sem Fronteiras, padecia de desnutrição. Em Angola morriam de cada vez dez mil pessoas diariamente um dos índices mais altos vistos em qualquer conflito moderno.

Depois da morte de Savimbi às mãos das tropas governamentais e a assinatura do acordo de cessar fogo, as tropas rebeldes foram-se desarmando. Parecia que ao fim chegava para os angolanos a tão desejada paz. No entanto, os líderes do MPLA, triunfante da contenda, controladores da grande riqueza petrolífera do país, pouco tem feito pelo seu povo e enriquecem com os petrodólares. A indústria petrolífera angolana produziu em 2001 entre 3 e 5 milhões de dólares. Nem um centavo foi utilizado para aliviar a terrível crise humanitária que sofre o país depois de mais de 27 anos de guerra.

Para isso fomos nós os cubanos para Angola? Já sabemos que cumprimos os sonhos messiânicos de uma superpotência e satisfizemos a idolatria do nosso caudilho, mas morreram os nossos filhos, irmãos e pais para que uma pandilha se enriqueça roubando o seu povo? Que deixámos em Angola? Morte, destruição, deslocados, fome, desnutrição, uma das piores crises humanitárias da história e uma quadrilha de gente sem escrúpulos no poder?

Segundo a ONC Testemunha Global, entre três e quatro milhões de dólares desapareceram do orçamento estatal em 2001. Os subornos e o tráfego ilegal de diamantes são prática comum.

A verdadeira escala da devastação começa a ser apreciada à medida que as organizações internacionais de ajuda humanitária tem podido penetrar em algumas zonas limitadas do país. Nas povoações em que tem podido desenvolver o seu trabalho os Médicos sem Fronteiras, as taxas de mortalidade superam quatro, cinco até sete vezes os níveis de crise. A organização considera que é a pior crise com que se tem deparado. Os civis angolanos tem sido as verdadeiras vítimas desta guerra que começou "Carlota" e que manteve por mais de 15 anos os nossos soldados em território alheio, cumprindo o triste papel de protectores de um governo tirano. Triste exemplo para ser recordado. Triste realidade, soma e mostra do totalitarismo tropical capitaneado pela triste figura de um Napoleão de "bolsillo". Não há nada que festejar e sim muito que pensar para que a história não se repita.

Tradução livre.

 

Fonte:Memorias de Angola (http://pissarro.home.sapo.pt/memorias0.htme)

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Commentaires (8)

1. noulsekeege (site web) 24/12/2012

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