Negritude e racismo

Negritude e racismo

Quero falar também da negritude. Ainda há paixões que se desencadeiam contra o princípio que a UNITA adoptou de negritude. Na interpretação com óculos colonialistas, negro significa exclusivismo de negro anti-branco, na medida em que essa gente ainda não se descolonizou, quer no aspecto de Angola, quer do mundo.

O colonialista considerava que o termo negro era pejorativo. O próprio africano foi educado pelo seu colonialista no sentido de que ser negro era ser inferior. E hoje, na fase da ascensão dos países africanos à independência, ainda o termo negro soa a fantasma.

A UNITA sempre defendeu princípios anti-racistas. Mas isso não significa que acabem as raças. É como na questão das tribos. Na negritude, queremos que o racismo acabe, mas as raças continuem. Porque as raças encerram valores próprios e esses valores, entrando em contacto com valores de outras raças, se enriquecem.

No meu entender, a negritude procura valores culturais capazes de assegurar uma identidade própria dos povos africanos ou de origem africana, para que, entrando em contactos com outras culturas se não deixem aglutinar, não desapareçam, antes se enriqueçam com esses contactos, ao mesmo tempo que tenham a capacidade de transmitir os seus valores a essas novas culturas. Só têm medo da negritude aqueles que não chegaram ainda a descolonizar-se, que ainda pensam em termos de raças exclusivas, em termos de superioridade de raças.

No meu conceito de negritude, o mundo é habitado pelos homens. Sobretudo o mundo da cultura, é o mundo dos homens. E se a cultura é o instrumento fundamental da ideia e da ideologia, os desaculturados caem facilmente no fanatismo de assimilação de culturas ou de ideologias que lhes são alheias. Os povos sem cultura não podem estar capacitados para o diálogo, ao nível universal.

A primeira fase da entrada da cultura portuguesa em Angola, com o colonialismo, foi um contacto de força, um contacto alienatório e eliminatório, que não teve em consideração os valores que a cultura angolana, que é negro-afriçana, podia encerrar. Não se fez o reconhecimento desses valores, que existiam, que existem, porque resistiram à invasão de valores culturais melhor estruturados e expressos.

O nacionalismo angolano surgiu, porque a cultura angolana não tinha desaparecido. De outra forma, ele não poderia ter surgido. A cultura portuguesa trouxe valores para a cultura angolana e esta, por não ter desaparecido, transmitiu também à cultura portuguesa certos valores. A língua portuguesa é um valor cultural. Mas ela não regressou a Portugal com a pureza com que partiu para África. Regressou com termos tirados de outros, nomeadamente dos angolanos. Também o sangue faz parte dos nossos valores. O sangue angolano não ficou puro, depois de quinhentos anos de dominação e de contactos. Da mesma forma, o sangue português não regressou para Portugal como tinha partido. A própria concepção do mundo com que os colonos portugueses partiram da Europa para Angola, para a África, não é a mesma que eles levaram no seu regresso das colónias.

Afinal, a negritude não reivindica para si nenhum exclusivismo. Reivindica, sim, uma base cultural, que identifique povos africanos ou de origem africana, para lhes permitir, na pesquisa permanente dos seus valores e na conservação dos mesmos, libertar-se do complexo de inferioridade cultural e ensinar outros povos a abandonarem o preconceito de superioridade cultural que têm para que, no conceito universalista do mundo de culturas, a cultura negro-africana contribua com algo para o equilíbrio e o ajustamento da cultura universal.

As culturas do Ocidente voltaram das colónias enriquecidas com o contacto que tiveram com os povos africanos ou de origem africana. Os povos árabes estão impregnados dos valores da negritude, assim como a negritude está impregnada dos valores árabes. Como simples elemento de referência de que a linguagem falada é um veículo cultural, cito um caso. Em português diz-se "oxalá"; em árabe diz-se "inxala". O que significa que a cultura árabe-berbere, ao contacto com a latina na Europa — em Portugal e na Espanha, precisamente, pois foram os países que mais sofrerem a influência árabe — deixou vestígios.

Se uma cultura conhece e desenvolve os seus próprios valores perde o complexo de inferioridade. E no contacto com outras culturas, no mundo que se fez cada vez mais pequeno, devido ao desenvolvimento das vias de comunicação, esse contacto não provocará aglutinações eliminatórias, antes trará enriquecimentos.


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Commentaires (1)

1. Ayres Guerra Azancot de Menezes (site web) 03/02/2012

RELEMBRAR O NACIONALISTA, AFRICANO, UNIVERSALISTA E UM DOS FUNDADORES DO MPLA, Dr. HUGO JOSÉ AZANCOT DE MENEZES.
Aos 11de Maio de 2000 faleceu o Dr. Hugo José Azancot de Menezes com 71 anos e faria 83 aos 02-02.2012.
Foi um benfeitor da humanidade, progressista e justiceiro em todo o seu percurso e nunca optava pelas situações radicais e pugnava pela reposição de valores, igualdade e sempre em prol dos desfavorecidos.
Era efervescente para ideais progressistas para a qual sempre norteou o seu percurso de vida fundamentalmente política nacionalista Africana e universalista.
O seu sonho foi sempre a emancipação de África por valores de consenso nacional e progresso social que herdou e desenvolveu ao longo de décadas.
Envolveu -se sempre desde os primórdios do nacionalismo ao qual participou na criação e fundação de associações políticas e posteriormente na fundação de partidos como MPLA, CLSTP, PDG NAS FASES embrionárias das suas existências.
Nos países Africanos onde praticou as actividades políticas e exerceu medicina conseguiu galvanizar muito apoio dos respectivos nacionais e governantes desses países Africanos que se tornariam independentes não só pelo seu desempenho e criatividade relativamente ao MPLA mais por iniciativas locais.
Esta data nunca passara despercebida para os seus familiares e amigos e camaradas de lutas em todas latitudes tanto em África como Europa onde ele trilhou o caminho da libertação e dignidade do homem Africano apesar dos novos valores e preocupação dos tempos modernos.
E que a África não te esquecera.

ESCRITO AOS 02-02-2012 POR:
Ayres Guerra Azancot de Menezes

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